Sabrina Noivas 108 - Bride Of His Choice

5 irms...e Richard Seymour tinha de se casar com 1 delas! Considerada o patinho feio em sua glamourosa famlia, Lynn Durant surpreendeu-se quando Richard fez sua escolha: casar-se com ela! A proposta de casamento era realmente tentadora, e a atrao que existia entre eles era incontrolvel. Mas Lynn era a noiva que Richard realmente queria... ou apenas o caminho mais fcil para o poder? A resposta era difcil, mas Lynn estava determinada a descobrir a razo da escolha de Richard!

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2000
Publicao original: 2000
Gnero: Romance contemporneo
Estado da Obra: Corrigida

CAPITULO I

O avio tocou o solo com um leve solavanco. Lynn Durant soltou as mos e abriu os olhos. Uma aterrissagem segura... se bem que os nervos, ainda mantendo o n em seu estmago, proclamavam que havia pouco mais de seguro nessa viagem.
Do seu assento junto da janela viu que chovia em Sdnei. A paisagem da baa de Botany era invisvel na mida escurido.
Era uma noite escura e tempestuosa...
O conhecido personagem de desenhos, Snoopy, sentado em sua casinha de cachorro junto  mquina de escrever sempre comeava suas histrias com essas palavras. Lynn imaginou se estaria iniciando uma nova fase de sua vida ao voltar para casa ou simplesmente terminando a fase que se iniciara no dia em que nascera, vinte e quatro anos atrs.
Desde que a imprensa lanara a notcia do ataque de corao fatal de Lawrence Durant ela se perguntara se o longo exlio havia terminado. No tinha certeza do que aquilo significava para sua famlia, mas sabia que o homem que dominara cruelmente a vida de todos estava morto. E Lynn queria v-lo enterrado. Enterrado alm de qualquer possvel redeno. Depois...
Bem, iria tentar descobrir se era possvel iniciar um novo relacionamento com sua me e irms, que poderiam no querer nada com ela. Fazia seis anos que deixara de fazer parte do mundo delas. Seis anos desde que fugira do inferno sabendo que no poderia pertencer quele mundo enquanto Lawrence Durant fosse vivo. Poderia acontecer que nenhuma delas a recebesse bem; a, o vazio em sua vida jamais seria preenchido.
Instintivamente lutou contra essa perspectiva. Tinha que haver uma chance. Lawrence no estava mais ali pra influenciar o comportamento da me e das irms em relao a ela... a filha que no era filha dele, o chupim que ele detestava ter sido posto no seu ninho. Certamente seria bem recebida por elas se houvesse alguma justia neste mundo.
O avio parou. Lynn soltou o cinto de segurana e levantou-se, como os demais passageiros, para pegar sua bagagem de mo. Estava com o corpo endurecido, cansada, e espreguiou-se como pde para esticar os msculos contrados enquanto esperava a ordem de desembarque. Havia sido uma longa viagem, no dia anterior o vo de Broome a Perth, a parada para comprar roupas adequadas e na mesma tarde a viagem de Perth a Sdnei, sobrevoando todo o continente australiano. Seria bom sair do avio.
Os passageiros moviam-se lentamente no corredor, para a porta de sada. Lynn passava entre as poltronas da primeira classe quando viu um jornal deixado sobre um assento. A fotografia chamou-lhe a ateno.
Richard... Richard Seymour.
Antes de perceber o que fazia, pegou o jornal e fitou a imagem que assombrara seus anos de adolescncia.
	Vamos andando!  disse algum, impaciente.
	Est atrapalhando, senhorita.  O homem atrs dela foi mais polido.
	Desculpe...
Corada, ela saiu do avio para o tnel de desembarque, ainda segurando o jornal amassado. Queria livrar-se dele, mas precisava encontrar uma lixeira no terminal.
Richard Seymour...
Lera a respeito dele em vrios artigos que relatavam a morte inesperada de Lawrence Durant. Era o homem que agora estava  frente do vasto imprio financeiro... o homem preparado pelo grande magnata para substitu-lo... o protegido e brao direito de Lawrence Durant. Mas nenhum dos artigos que lera eram acompanhados por fotos.
Ver aquele rosto despertara uma onda dos sentimentos ambivalentes que Richard sempre despertara.
Idiota!, repreendeu-se zangada. De uma coisa tinha certeza. Se aquilo era o comeo de uma nova fase da sua vida, Richard Seymour no faria parte dela. No havia motivo para ele misturar-se com a famlia Durant. Agora tinha o que queria: estava no topo sem ter que dar satisfaes a ningum, a no ser aos acionistas.
Chovia quando ela saiu do terminal. Felizmente no havia fila para pegar txi e muitos estavam esperando. Correu para um deles, entrou, acomodou-se no assento de trs, com a mala, e deu o endereo do hotel ao motorista. Enquanto ele se inseria no trfego, tentou relaxar. Impossvel. Ficou olhando a rua molhada que refletia as vrias cores dos luminosos.
Era uma noite escura e tempestuosa... Seria um mau augrio? Ser que deveria ter ficado em Broome, deixando o passado para trs? Ser que aquela era uma misso desesperada?
Agora no adiantava mais, raciocinou, teimosa. J estava l. No dia seguinte iria ao funeral de Lawrence Durant, veria a me, as irms e a atitude delas diria se aquele era seu lugar ou no. Seria o dia que iria definir o seu futuro. Afinal, no queria ficar em dvida pelo resto da vida.

CAPITULO II

Nada havia mudado.
Lynn estava na enorme sala de recepes da manso Durant com a mesma sensao opressiva que sentia quando criana e adolescente. Era como se houvesse se deslocado para trs no tempo e fosse absorvida por tudo de quanto tentara escapar; a insegurana, a rejeio, o medo de no ser como devia, o desespero de no pertencer quele lugar.
Seria diferente agora, disse corajosamente a si mesma. Law-rence Durant, seu pai pelos primeiros dezoito anos de sua vida, havia morrido. Com certeza sua repressiva e tirnica fora morrera com ele deixando sua me e irms livres para seguirem as prprias inclinaes em vez de se submeter s regras dele. Seria ainda muito cedo para elas se convencerem de que ele se havia ido? Ser que o funeral daquele dia no bastara para tornar aquela a casa delas?
Claro que as conversas na igreja, durante o servio fnebre, haviam sido limitadas. O choque de a verem depois de to longa ausncia tambm causara a perda da fala, mas por que a evitavam agora, ignorando sua presena, deixando-a sozinha? Se quisessem demonstrar-lhe um mnimo de boas-vindas...
Sentindo-se mal e deslocada entre a multido de pessoas notveis que enchia a sala de recepo, a fim de prestar homenagens ao homem que significara riqueza e poder, Lynn sentiu um esperanoso alvio ao ver sua me deixar um grupo de gente enlutada, ficando sozinha por momentos. Andou depressa para intercept-la e tocou-lhe o brao.
 Mame...
Alicia Durant deu um breve e impaciente olhar  filha caula.
 Agora no, Lynn. Tenho que falar com Richard.
Sentindo-se gelar, Lynn deixou a mo cair e olhou, desamparada, a me dirigir-se para o homem que no momento dividia suas atenes entre as quatro irms.
Richard Seymour... o herdeiro do imprio financeiro de Lawrence Durant, presidia a recepo ps-funeral do magnata, na manso da sua famlia. Ela se recusara sequer a olhar para ele durante o funeral. Olh-lo naquele momento fazia ressurgir o velho dio.
Richard era o que ela jamais poderia ser... era o que Lawrence Durant quisera de suas cinco filhas: o filho querido para substitu-lo. A quinta filha que sua esposa tivera era Lynn. Mais uma filha, s que de outro homem, uma rejeitada que jamais era notada a no ser para receber reprovaes. Fato que se tornara mais cruel em comparao com o tratamento dado a Richard Seymour, o escolhido.
Claro que ele brilhava em todos os pontos, aparncia, crebro e carisma pessoal. A aura de poder, sucesso e de confiana literalmente pulsavam nele. Lynn voltou-lhe as costas deliberada-mente dizendo a si mesma que isso j no importava. No tinha mais motivo para odiar Richard Seymour. Fizera sua vida longe de tudo que Lawrence Durant tocara e viera ao funeral dele por um senso de unio  essa parte triste de sua vida... e para ver se significava alguma coisa para o resto da famlia.
Era derrotar-se deixar os velhos pensamentos tomarem conta de si. Ela no queria mais ser algo que no era. Levara bastante tempo para se tornar ela mesma, seis angustiantes e solitrios anos, e Richard Seymour no podia afetar isso agora. Se pudesse demonstrar  famlia que atingira a maturidade e que as coisas podiam ser diferentes...
Lynn suspirou para aliviar a aflitiva presso em seu peito. A me e irms certamente estavam dando ateno a Richard Seymour por hbito. O rei morreu. Viva o rei. S que Richard no era da famlia, portanto Lynn no entendia a fixao delas nele. Ele no poderia dirigir suas vidas como Lawrence Durant dirigira. No com a mesma mo de ferro e menos ainda com o mesmo cruel julgamento de crime e castigo.
Talvez quando toda aquela gente que precisava ser impressionada tivesse ido embora teria oportunidade de se reunir  sua famlia. Pelo menos estava fazendo um esforo para refazer as pontes que rompera ao fugir da insuportvel existncia que levava nessa casa.
Contudo, no sentia prazer algum em circular entre aquela gente, forada a conversar com pessoas que podiam apenas olh-la com curiosidade. Foi para a varanda que estava vazia, provavelmente devido ao vento frio que era desconfortvel para a maioria das pessoas, mas no a incomodava. No usava chapu e nenhum penteado que ele poderia desarranjar. A vasta massa de cabelos negros que chegavam quase at a cintura ficaria em ordem com uma boa escovadela quando entrasse.
Desceu os degraus que levavam ao jardim que se estendia at a praia e parou para admirar a paisagem da baa de Sdnei. A chuva do dia anterior parara, mas fazia um dia cinzento e nublado. At mesmo os barcos pareciam encolhidos com o frio.
Ela pensou no porto de mar de Broome, na costa do outro lado da Austrlia onde as guas eram sempre quentes e cor de turquesa, onde "pressa" era uma palavra estranha, uma vida muito diferente da vida em Sdnei. Mas ela teria feito de fato seu lar em Broome ou era apenas um refgio?
	Lynn...
Voltou-se ao ouvir seu nome. Imediatamente os nervos afloraram. Richard Seymour procurando sua ateno? Ele estava to prximo de Lawrence Durant em sua mente que o medo apertou-lhe o corao, fazendo-a recuar, desconfiada.
No era mais uma adolescente presa naquele lugar. Era uma jovem mulher de vinte e quatro anos, independente e bem estabelecida em uma vida longe dali. No havia nada a temer, nada que pudesse amea-la, e aprendera a lidar com uma poro de coisas.
Obrigou-se a manter a cabea erguida e a olhar friamente o homem que fora seu tormento no passado. No podia imaginar por que ele se importava com ela. Que interesse poderia ter na ovelha negra da famlia Durant?
Nem uma vez nos ltimos seis anos ela procurara qualquer ajuda dos Durant. Ento, por que Richard Seymour deixara seus admiradores e a seguira at ali? Ela devia ser completa-mente irrelevante na vida dele.
	...voc no est indo embora, est?  perguntou ele.
Parecia preocupado, o que desorientou Lynn ainda mais.
	por que voc se importaria?  indagou, admirada.
Richard se aproximou, sorrindo.
	Ainda no tive chance de conversar com voc.
Lvnn encolheu-se instintivamente diante do encanto dele. O que significava aquilo?
	Que  no sabia que tnhamos algo a falar  conseguiu dizer.
Isso no o deteve e os nervos dela se tensionaram mais. No queria a proximidade dele. Trazia ms lembranas, amargas lembranas de esperanas e sonhos desfeitos.
	Voc foi embora h muito tempo  comentou Richard, amigvel.
Diminuiu mais a distncia entre eles tornando-a consciente de como era alto e msculo no terno de luto bem cortado. Lynn no se deixou enganar. Por alguma obscura razo ele tentava aproximar-se num momento em que seu corao hesitava, ainda reagindo ao medo antigo de ser atacada.
De algum modo, ela conseguiu sorrir com ironia.
	Quer me dar as boas-vindas ao lar?
Ningum o havia feito e ela no esperava que o fizessem.
Ele era incrivelmente bonito. A foto do jornal no lhe fazia justia, faltando-lhe a atraente vitalidade. Tinha trinta e quatro anos e estava em pleno vigor. Seu rosto queimado de sol era saudvel. Os cabelos,, menos negros que os dela, tinham uma onda na frente que muitos cabeleireiros gostariam de poder imitar. O nariz era forte e reto, a boca perfeitamente desenhada. Os maxilares eram quadrados e o queixo firme dava mais fora ao rosto.
Apesar do conjunto impressionante, o ponto mais atraente estava nos olhos, de um azul-escuro realado por pestanas negras e longas, encimados por sobrancelhas grossas e arqueadas, que lhe davam um ar arrogante.
	Voltou para casa?
A voz suave fez um arrepio percorrer a espinha de Lynn. Imediatamente ergueram-se todas as defesas. Ele no ia domin-la. Ela no queria, no podia deixar. Adotou um ar indiferente. Eu queria apenas sondar o ambiente. Por enquanto parece-me muito frio e vim dar uma volta no jardim enquanto as pessoas importantes so atendidas.  Com um leve sorriso e descendo os degraus, acrescentou:  Se me d licena...
Ele a seguiu.
	Gostaria de acompanh-la.
No houve arrepios desta vez, Lynn sentiu os msculos retesarem e surgiu uma massa de sentimentos no resolvidos em relao a Richard Seymour. Aquele tempo passara! Ele tinha a aparncia de heri, mas no agira como tal quando ela esperava que se erguesse enfrentando seu pai e salvando-a. Que bobagens os sonhos da adolescncia!
Ela sacudiu os ombros e indicou a sala.
	Vo sentir a sua falta.
	 com voc que quero estar.
A resposta direta mexeu com o corao de Lynn.
	No  uma boa escolha  observou.
	Mas  a minha. No permito que os outros escolham por mim.
Havia um propsito claro nos determinados olhos azuis. Olhos de um caador que ia atrs do que queria caar.
Ser que ele pensava que ela voltara para causar-lhe encrenca? Ser que a via como algum que precisava neutralizar? Nunca se sabia o que uma ovelha negra podia fazer. Afinal, por que voltar para o funeral depois de seis anos de ausncia?
Lynn decidiu que no faria mal conhecer Richard Seymour melhor.
	Est bem  concordou. Decidida a mostrar que sua presena no a perturbava, acrescentou:  Admiro pessoas que tm a fora de carter de fazer as prprias escolhas.
	Eu tenho  sorriu ele.
Aquele sorriso parecia lig-la a ele, como se fossem conspiradores. Lynn imediatamente afastou a ideia, mas sentia-se perturbada. Richard no era o homem que ela queria que fosse.
Ele percorreu-a com o olhar, enquanto desciam.
	Voc est tima, Lynn.
	Obrigada...
Ela lembrou-se da ltima vez que ele havia comentado sua aparncia e defendeu-se instintivamente da lisonja que podia haver naquele cumprimento. Continuou:
	...e no pareo anorxica, espero.
Ele a acusara disso depois de um dos almoos habituais de domingo que Lawrence fazia, no qual ela no conseguira comer, o estmago apertado demais para aceitar qualquer coisa. E esse no comer nada tinha a ver com regime para perder peso. Richard deu de ombros.
	Quer acredite ou no, estava preocupado com voc naquele tempo. Era magra demais.
	E o demonstrou amavelmente. Anorexia pode ser um modo de perder o controle sobre seu corpo, mas no lhe dar o poder de controlar nada mais  repetiu.
Os olhos dele fitaram os dela ao chegar a seu lado nos degraus.
Eu achava que yoc precisava de uma sacudidela  explicou Richard, sem se desculpar.
E a estava sacudindo tambm agora com seu perverso interesse por ela e com a clareza de que aquela lembrana nada significava para ele. Naquela poca Lynn estava com quase dezessete anos, lutando com o que ento considerava um injusto problema de peso, querendo se parecer com as irms, que eram esguias, mas com as curvas certas. Tarefa impossvel.
Lynn nascera com diferente estrutura ssea e por mais que comesse no colocava curvas no corpo que lembrava o de um garoto. Longe das influncias repressivas da famlia se transformara na mulher que sempre quisera ser, com curvas volu-tuosas, mas no com excesso de peso. Mais alta do que a mdia das mulheres, mesmo com salto alto era uma cabea mais baixa do que Richard Seymour.
Comeavam a andar entre os canteiros ornamentais.
Bem, Richard, deixe-me dizer-lhe que no preciso da sua aprovao para quem ou o que sou. Na verdade a sua opinio, boa ou m,  irrelevante para mim.
Pronto. Assim o colocara no lugar certo no mundo dela.
Ele riu e ela fechou os punhos dando-lhe um olhar nada divertido.
	Senti saudade do negro brilho dos seus expressivos olhos.
Saudade? Ser que o impressionara tanto, anos atrs? Ou ele estava tentando flertar com ela agora que estava bem? O costume preto que comprara para o funeral delineava seu corpo. Ela no gostava de roupas que a engordassem e pelo jeito Richard apreciava sua nova aparncia. Quanto aos olhos, Lynn os aceitava como parte de seu colorido; combinavam com o negrume dos cabelos e com a pele morena. Tinha nariz fino e lbios rasgados, cheios. Tivera que aceit-los tambm. Depois que crescera suas feies haviam ficado de acordo com o corpo. Claro que no se sentia mais como o patinho feio que havia sido na manso Durant, se bem que jamais pudesse ser uma beleza loira como suas irms. Triste, lembrou-se da tentativa, quando adolescente, de pintar os cabelos de loiro. Desastre total, como tudo mais que tentara na adolescncia para adquirir uma figura aceitvel. No sabia, ento, que era o chupim no ninho de tico-tico.
No tenho dvida de que no precisa da minha aprovao, Lynn.  Richard parecia determinado a faz-la sair do silncio. Acrescentou:  No existe um homem sequer com sangue nas veias que no a aprove.
Sexo! Lynn desviou o olhar e caminhou mais depressa, fumegando por causa daquela viso que ele tinha dela. Era mais do que o corpo sensual que uma poro de homens queriam, mas um homem como Richard Seymour no havia de querer uma mulher com a mente e o corao. Fazer sexo era provavelmente o estilo dele.
Em toda a cobertura que os jornais e revistas haviam feito do falecimento de Lawrence Durant, havia ficado patente a constatao que Richard Seymour no era casado e era o mais ambicionado solteiro da Austrlia. Lynn imaginava se ele era mulherengo como Durant havia sido por trs da respeitvel fachada do casamento. Com sua aparncia, talvez no tivesse outra escolha.
Ser que ele estava pensando o mesmo dela? Se assim fosse, estava errado. Ela nem mesmo ligara para as chances que tinham aparecido em seu caminho. Algo como uma barreira erguia-se no momento em que qualquer homem comeava a chegar muito perto. Quanto a desej-los... sempre achara que desejo estava ligado com confiana e era por isso que no podia senti-lo. Talvez um dia encontrasse algum em quem pudesse confiar que a amava tanto quanto queria ser amada.
	Est feliz com sua vida?
A pergunta aparentemente sem importncia tirou Lynn dos pensamentos. Sinais de alarme soaram em sua mente. Qualquer informao que desse a um homem como Richard Seymour poderia ser usada contra ela. Tivera experincia deste processo na manso Durant.
Mantendo os olhos fixos num dos canteiros, respondeu:
Razoavelmente.  E devolveu a pergunta.  E voc? Est feliz com o que se tornou?
Ele riu de novo, se bem que desta vez houvesse mais ironia do que alegria no riso.
	Sabe? Nunca ningum tinha me feito essa pergunta.
Claro. O sucesso brilhante no provocava dvidas.
	Talvez voc mesmo pudesse t-la feito  notou ela, seca.
	Talvez pudesse...  ele falou mais seco ainda.  Se bem que no possa dizer que ela estivesse em minha lista de prioridades. Sempre achei a felicidade uma coisa elusiva, difcil de encontrar e ainda mais difcil de conservar.
Ao contrrio da riqueza e do poder.
	Ento, por que me perguntou?
	Porque na realidade queria saber se tem algum relacionamento que acha satisfatrio. Tem?
Parecia uma pergunta casual e a primeira reao de Lynn foi que no era da conta dele. Ento, o prvio comentrio sobre "homens com sangue nas veias" comeou a incomod-la. Ser que Richard queria um namoro temporrio com ela enquanto estivesse em Sdnei? Ser que por isso a seguira at o jardim... para verificar se seu encanto e disponibilidade podiam lev-la para a cama? Ser que a achava velha o bastante para ele, agora?
A ideia era ultrajante, no entanto -tentadora. Lynn estava disposta a entrar no jogo para ver at onde iria.
No. No tenho. Alis, no procuro nada de "satisfatrio"  respondeu honestamente.  Mas no voltei por sua causa, Richard.
Foi um erro olhar de novo para ele, aqueles olhos sedutores prenderam os dela.
	No sou um dos fantasmas dos quais voc quer se livrar?
	Por que seria?
Ela estava perturbada com a rapidez da sua pulsao.
	Porque voc me odiava.
Ele estava deliberadamente despertando os fantasmas, o que deixava Lynn desconfortvel.
Voc no odiaria, no meu lugar?
Sim, mas eu no podia tir-la do seu lugar, Lynn. Voc precisava fazer isso sozinha. E o fez. Pergunto-me se todos aqueles sentimentos negativos em relao a mim permanecem...
Ele estava chegando muito perto dela, de sua cabea, do seu corao, e Lynn no queria isso. Percebendo que havia parado para resistir aos ataques aos seus sentimentos, ela fez as pernas moverem-se de novo e tratou de escapar da armadilha de ser o foco da conversa.
	No podia imaginar que isso lhe importava.
	Importa muito.
	Por qu?
Ela se recusava a crer nele. No podia, no ia deixar-se ficar vulnervel ao que Richard Seymour pensava ou sentia a seu respeito. Quando esperara que a salvasse, ele no aparecera.
Eu no era seu inimigo  respondeu Richard, com simplicidade.  Seu dio era cego, Lynn. Eu era seu amigo, o tanto que podia.
Amigo!, pensou ela com uma violncia que a perturbou. Deixe-o continuar, disse a si mesma. Deixe-o continuar e o coloque de lado, fora da sua vida.
	Eu no o via como inimigo, Richard  disse to desapaixonadamente quanto pde.  No de modo pessoal. Se voc no fosse o favorito protegido, algum outro o seria em seu lugar e usado por meu pai para demonstrar sua insatisfao comigo.
	No gostei do meu papel nesse jogo particular, Lynn. 
Ela no pde deixar de pensar em como ele se comportara, mesmo no gostando.
	Mas no saiu do jogo  observou, dura. 
Como voc disse, no mudaria nada  lembrou ele. Lawrence teria encontrado outro, algum que entrasse no jogo
com ele, talvez tornando tudo pior para voc.
Na verdade, ela no podia acusar Richard de ter ajudado ou instigado as maldades que sofrera durante os almoos de domingo na manso Durant. Lembrava-se dele mudando a conversa para outros temas, desviando-a, e o odiara por isso tambm. Por ter tido pena dela.
Quisera que ele se levantasse e lutasse a seu favor, se bem que Lawrence jamais teria tolerado tal coisa. Com uma cabea mais velha e mais sbia- sobre os ombros, agora Lynn podia ver isso. Mas naquele tempo...
Ela respirou fundo, tentando livrar-se da perturbao que Richard Seymour ainda conseguia provocar. Pensando friamente, era possvel concordar com o ponto de vista dele: poderia ter sido um amigo para ela dentro dos parmetros de sua posio.
	Bem, obrigada por ter pensado em meus sentimentos  agradeceu, tentando ser justa.  Alis, eu no o odeio mais e voc no  um fantasma que quero fazer sumir.
	Bom!  Ele parecia aliviado.
Essa reao impressionou Lynn. Por que se importava com o que ela sentia? A menos, claro, que quisesse ir para a cama com ela e no quisesse fantasmas fazendo parte da cena. Mas seria isso, mesmo? J no tinha certeza de nada em relao a Richard, que continuava andando ao seu lado perdido em pensamentos. Lynn tinha quase certeza que esses pensamentos eram a seu respeito.
Chegaram ao pequeno lago artificial. Querendo reduzir qualquer senso de intimidade com um homem com o qual nada podia ter em comum, alm das lembranas do passado, ela sentou-se num dos enormes blocos de arenito que formavam uma plataforma  margem do lago circular e mergulhou os dedos na gua provocando a fuga de peixinhos, suas cores luminosas refietindo a luz.
To lindos, pensou. Ser que sabem que so prisioneiros comprados pela riqueza de Lawrence Durant para seu prazer? Ser que liberdade significava alguma coisa para esses peixes ou eles estavam perdidos num mundo" alm do confinamento? Eram bem alimentados, mas ser bem alimentado no significava tudo. Era bom sentir-se livre. No entanto, mesmo longe daquele lugar e de tudo que ele representava, Lynn sabia que ainda estava emocionalmente presa a ele e era por isso que voltara esperando... O qu?
Teve impresso de perder-se de novo.
	Estou contente por voc ter voltado, Lynn.
A entonao clida fazia o comentrio parecer verdadeiro, pessoal. No mesmo instante Lynn se ps em guarda. Se comeasse a esperar muito de Richard Seymour iria desiludir-se amargamente. Qualquer proximidade com ele seria perigosa. Sentia sua presena agudamente, mesmo a um metro de distncia.
	Eu precisava estar aqui hoje  respondeu ela, ainda olhando os peixinhos.  O funeral tornou a morte de Lawrence real... o caixo... a cremao... das cinzas para as cinzas. Do p para o p. Ele no pode mais me machucar.
E eu tambm no vou deixar voc me machucar, acrescentou mentalmente.
	Sua me e suas irms... pelo que vi, nenhuma delas a apoiou naquela poca. Espera que seja diferente agora?
Ele tambm no lhe dera apoio, pensou Lynn, mas logo lembrou-se que, mais do que os outros, Richard muitas vezes desviara a ateno de Lawrence dela. Por outro lado, no fora a nica na famlia a ser verbalmente atacada. Durant era repressor com a me e as irms tambm.
	No sei se ser diferente  respondeu, honesta.  Naquele tempo Lawrence puxava os cordis. Parece que quem os puxa hoje  voc. Ento, o que quer, Richard? Para que esta nossa conversa?
Ele fitou-a com um olhar frio e calculista. Quando falou foi sem prembulos, sem persuaso.
Quero me casar com voc.

CAPITULO III

Lynn ficou olhando para Richard Seymour, espantada demais para acreditar no que ouvira, mas seus olhos no captavam nos dele mensagem alguma que desmentisse suas palavras.
Ele a fitava concentrado, avaliando a reao dela. Seu corpo parecia relaxado, mas Lynn podia sentir a tenso que emanava dele. Mais do que tenso, fora de vontade transparecia nos olhos azuis absolutamente srios.
Havia apenas uma pergunta a fazer e ela a fez.
	Por qu? Com todas as mulheres que tem para escolher, por que eu?
A boca de Richard curvou-se num meio sorriso.
	Posso dar-lhe muitos motivos, Lynn, mas uma vez que eles so do meu ponto de vista, duvido que voc os considere vlidos.
Ela no pde deixar de rir. A situao era to improvvel que a histeria comeou a tomar conta dela. Rei Richard queria Cinderela para sua esposa? Isso seria compreensvel se estivesse loucamente apaixonado por ela, mas essa ideia estava longe da sua proposta.
Lynn no pde resistir a desafi-lo.
	D-me pelo menos uma das suas razes, Richard. Uma na qual eu possa acreditar.
Os olhos dele brilharam.
Somos companheiros de uma viagem que comeou muito tempo atrs. Quem mais poderia entender o que houve nessa estrada?
Um aperto no corao de Lynn matou toda vontade de rir e evocou a resposta sbria e veemente.
	Eu sa dessa estrada.
	Saiu?  Foi a vez dele desafiar.  No parece, Lynn, se no voc no teria voltado.
	J expliquei por qu.
Richard assentiu.
	Eu ouvi e acho que no terminou para voc... Ainda est procurando...  ele fez uma pausa e seus olhos mergulharam nos dela  justia.
Ele estava penetrando em sua mente, remexendo fatos que ela jamais remexera.
	Que melhor justia do que inverter as posies... com voc dona de tudo que lhe foi tirado?  sugeriu Richard com um terrvel, insidioso apelo ao que havia de obscuro nela.  Posso oferecer-lhe isso.
Lynn queria virar o rosto, escapar da medonha intruso em sua alma, no entanto se o fizesse ele saberia que acertara e saberia onde ela era vulnervel. A escurido no era boa. Ten-tava escapar dela, detestando como estragara sua vida. Com-preendia agora que tivera que voltar para confrontar essa escurido, faz-la desaparecer. Mas como isso aconteceria casando-se com ele? No continuaria na mesma?
Tivera razo em no dar informaes a seu respeito para Richard. Ele era muito esperto em ler no seu ntimo. Alis, no teria sucedido Lawrence Durant se no fosse diabolicamente esperto e implacvel. E ela no se esquecera do jogo: esconder a mgoa derrotava a vitria. Manteve o olhar firme e insondvel.
	Vamos ao que interessa, Richard. No acredito que voc me queira e casamento tem que ter uma finalidade. Qual  a vantagem que ele trar para voc?
Ele riu, desarmando-a por um momento. Havia admirao no olhar dele, o que a desarmou mais ainda.
	Creio que no acreditaria em mim se eu lhe dissesse que a amo.
Richard aproximou-se da beirada de arenito que circundava o lago, colocou um p sobre uma das pedras e inclinou-se para a frente, apoiando-se no joelho erguido. A pose o fez ficar mais perto dela, dando impresso de intimidade, apesar de ele respeitar o espao pessoal de Lynn. De repente, um brilho passou pelos olhos azuis, deixando-a nervosa.
Mas no pense que no a quero, Lynn.  A voz dele se tornara caridosa.  No h nada em voc que eu no queira, inclusive seu modo to direto que s vezes  rude. Gosto desse modo mais do que voc pode acreditar:
O corao dela batia to forte que Lynn no conseguia pensar no que dizer. Sua mente estava confusa por sinalizaes sexuais e o pior  que no queria livrar-se do fascnio fsico por Richard Seymour. Lembrou-se como a presena dele sempre a perturbava quando era adolescente. Na poca no reconhecera isso como atrao sexual, mas agora...
Ele saberia?
Ele sentiria isso?
O pnico a manteve calada e ele no se perturbou com a falta de resposta. Voltou a falar confiante, sabendo que ela o entendia.
	Esperava-se que voc fosse o filho que continuaria o nome e a dinastia de Durant. E voc pagou caro por no ser um menino. O que no sabe, ainda,  que Durant jamais perdeu a obsesso de ter sua prpria carne e sangue na sucesso.
	Isso  impossvel  murmurou Lynn.
	No. No  impossvel... se ele tiver um neto com a sua capacidade. E Lawrence pensou nisso antes de morrer. Pensou e planejou.
Um neto. Era revoltante. Um beb inocente criado para satisfazer o imenso ego de Lawrence Durant, com a vida e finalidades rigidamente determinadas antes mesmo de comear a viver. Como teria sido com ela se houvesse nascido do sexo certo e fosse o material adequado para moldar um monumento a um homem que no o merecia!
	Ele escolheu o nome do neto, tambm?  indagou, agressiva.  O meu era para ser Lynn Jason. O Jason foi retirado quando viram que eu era uma menina.
	Lawrence. O neto deve chamar-se Lawrence.
	Claro. Um Lawrence se vai, vem outro.
Algo infinitamente perigoso e determinado brilhou nos olhos dele.
	Durant no pode controlar isso do alm, Lynn...
Ela estava fascinada por aquele brilho que no sabia definir.
	Continue  pediu.
	Eu assumi o papel designado a voc, assim como fiquei conhecendo o que ele esperava de um filho. Minha to festejada posio como sucessor de Durant no  definitiva.  provisria at que eu satisfaa os termos do testamento.
	Que so?  forou ela diante da pausa.
Mais ou menos Lynn sabia o que estava por vir e um doloroso vazio a envolveu.
Um sorriso triste desenhou-se nos lbios de Richard.
	Se eu me casar com uma de suas filhas e tiver um filho terei minha posio assegurada na empresa at que seu sucessor possa assumir. O material adequado para se unir aos genes de Durant. Da o pedido de casamento.
A no ser que ela no devia ser a escolhida.
Havia uma enorme falha na escolha de Richard Seymour e Lynn no seria a nica a saber disso. Sua me sabia com certeza e suas quatro irms estariam sabendo tambm. Elas diriam a ele assim que fosse de seu interesse. Todas as cinco deviam estar sabendo das clusulas do testamento. A que fosse escolhida por Richard seria a senhora do mundo que conheciam. Isto explicava porque sua me e irms estavam to preocupadas em dar ateno a ele, a ponto de nem se importar com a volta da filha prdiga. Era o mesmo jogo doentio, a luta pelo poder.
Lynn percebeu que estava olhando para a perna que Richard erguera, ao apoiar o p na pedra. A fina casimira da cala estava repuxada de modo a revelar uma coxa musculosa. A mente dela apressou-se a formar uma imagem de como ele seria nu, todo poder msculo energizado pelo desejo por ela...
Mais um sonho a virar poeira, pensou sentindo a mesma dor de desapontamento em que os sonhos com Richard sempre terminavam. Se lhe dissesse a verdade ele no iria quer-la como esposa. Mesmo que a quisesse, no poderia deixar-se levar, sabendo que ele inevitavelmente teria que escolher uma de suas irms como noiva. Era melhor cortar aquilo agora mesmo.
Ela ergueu os olhos e recusou.
	A resposta  no, Richard. No quero me casar com voc. Ento, para demonstrar que era caso encerrado, levantou-se e caminhou para os degraus que levavam para outro terrao, longe dele, longe da casa que dominara boa parte da sua vida, longe da famlia que se importava mais com o que ele representava do que com ela. 
	por qu?  perguntou Richard, atrs dela.
Ela fez um gesto com a mo, sem olhar para trs.
	Voc tem outras quatro filhas para escolher.
	No quero nenhuma das outras  declarou ele, com veemncia.
Ela sacudiu a cabea diante da triste ironia daquela declarao e continuou andando, descendo os degraus que levavam para a casa de vero que ficava num terrao entre o jardim das rosas. Podia ouvir os passos dele seguindo-a e desejava que a deixasse sozinha.
Era to perverso ele a escolher entre as irms, as bonitas loiras, verdadeiras socialites que tinham o sangue certo nas veias, para partilhar da sua cama e da sua conta bancria. Felicity, Vanessa, Caroline, Nadine... Que nomes lindos, femininos, cheios de classe!
O impulso de empurrar pela garganta abaixo de Richard Seymour a verdade que ela era obrigada a aceitar fez Lynn parar junto da casa de vero e olh-lo. Ele ainda descia os degraus e se aproximava dela.
	Voc sabe, Richard, que a maioria das pessoas no sabem bem o que querem. Voc pode no estar acostumado, mas s vezes precisa-se assumir compromissos no mundo de vocs.
	Voc poder ter tudo que quiser comigo, Lynn.
A forte convico da voz dele apertou-lhe o corao, mas s por um momento. Ele no estava lhe oferecendo amor. Provavelmente nem sabia o que era o amor. A extravagncia da sua promessa a fez rir e o vento levou consigo o som amargo daquela risada. Isso no o deteve. Os olhos azuis no hesitavam diante dos dela. Ao contrrio, havia neles um fogo que acabou com o escrnio de Lynn e era capaz de fazer surgir uma esperana. Mas no havia esperana.
E muito simples, Richard  disse, determinada.  Seja l o que tem para me oferecer, no posso lhe dar o que quer.
Ele permaneceu imperturbvel e havia um desafio em seus olhos quando perguntou:
	Porque voc no  filha de Lawrence Durant?
Foi um choque para ela.
	Voc sabia?
As palavras escaparam antes que pudesse impedir. Ele sabia ou desconfiava e a levara a admitir? O pedido de casamento no tinha sentido se ele sabia. Vergonha e orgulho a impediram de reagir quando Richard se aproximou com satisfao estampada no rosto.
	Eu soube desde o dia em que a conheci, Lynn. Voc nada tem a ver com Durant fsica, mental ou emocionalmente. Nada a liga a ele. Nada.
Isso no era uma prova, pensou ela, porm ele prosseguiu.
	Lawrence Durant confirmou-o quando voc foi embora e sugeri que ele contratasse algum que descobrisse onde voc estava. Poderia precisar de ajuda. "Ela  filha da minha mulher, no minha!", foi o que ele me disse, depois me fez prometer que guardaria segredo. Um homem to orgulhoso no podia admitir que o mundo soubesse que voc no  filha dele.
 fora da autoproteo a manteve imvel, se bem que seu corao batesse como louco.
	Legalmente, voc  filha dele  tornou Richard.
	No.  Ela hesitou, mas tudo tinha que ser dito.  Ele me repudiou e deserdou quando fui embora.
	Ele fez uma clusula sobre voc no testamento, Lynn, e em lugar nenhum est escrito que no  filha dele. E como Lawrence foi cremado hoje, no pode haver testes de DNA para provar que no . Posso me casar com voc em boa-f com os termos do testamento.
Instintivamente ela lutou contra a clareza dessa lgica.
	Minha me pode dizer que ele no  o meu pai.
Ele sorriu.
- No  do interesse dela fazer isso. A manipulao da riqueza! O temor que Lynn tinha a esse respeito a fez discutir.
	O que o faz pensar que meu verdadeiro pai no vai se revelar quando vir que h dinheiro  vista? 
O sorriso sumiu do rosto dele. No entanto seus olhos suavizaram-se.
	No vai acontecer, Lynn. Sua me pagou para que ele e a famlia voltassem para a Itlia antes de voc nascer. Desde que eles partiram, nada souberam a seu respeito.
	Voltar  Itlia?  admirou-se ela.
	Voc no sabia que ele era italiano?
Ela sacudiu a cabea. Numa noite terrvel ficara sabendo que Lawrence Durant no era seu pai, mas a me se recusara a revelar as verdadeiras circunstncias de seu nascimento. A discusso entre Lawrence e a esposa fora como uma tempestade sobre sua cabea, porm tinha mais a ver com arranjos financeiros do que com a infidelidade que a trouxera ao mundo. Eles haviam esquecido dela, rosnando ameaas um ao outro. Ela simplesmente sara da sala, arrumara suas coisas e tinha ido embora.
Italiano... Bem, isso explicava seus cabelos, olhos e tez. No havia muitos italianos loiros. Provavelmente explicava seu corpo, tambm. A nica atriz italiana de que conseguia lembrar era Sophia Loren, cuja feminilidade curvilnea se tornara lendria. Lynn sups que um amante de sangue quente, italiano, deveria ter feito um tentador contraste com Lawrence Durant... Mas o fato  que em vez de um filho sua me tivera mais uma filha.
	Ele era jardineiro da casa quando voc foi concebida  explicou Richard.
Ela ficou chocada.
Jardineiro? Minha me tornou-se amante de um jardineiro?
Parecia incrvel. Sua me, uma esnobe de nariz levantado que desdenhava o que ela chamava de baixas classes.
Ele tinha quatro filhos, Lynn.
Ah! A lgica tornou-se cristalina no mesmo instante. Um homem que fazia filhos era precisamente o necessrio quando quatro filhas haviam nascido e precisava-se de um filho.
Lynn fechou os olhos, revoltada pelo clculo que envolvia sua concepo... e o pagamento pelo servio prestado. Sem dvida, se houvesse ultra-sonografia naquele tempo o sexo do beb teria sido determinado e a gravidez interrompida, de modo que ela no estaria viva hoje. Sua me se arriscara a ter um filho com olhos e cabelos negros. No importava se fosse um filho no querido. Mas viera ela que representava fracasso em todos os sentidos.
	Como voc sabe de tudo isso, Richard?  perguntou.
No queria, mas obrigou-se a fit-lo. Queria ler a verdade em seus olhos.
	Determinei-me a saber.
	Por qu?  Um doloroso cinismo levou-a a acrescentar:
 Para ter certeza que nada poderia impedir seu plano?
	No havia plano quando procurei a informao. Foi h seis anos, Lynn.
Ela franziu a testa, sabia que os termos do testamento s haviam sido divulgados com a morte de Durant.
	Ento, de que lhe adiantava saber?
A expresso sria dele tornou-se suave.
	Pensei que um dia voc ia querer saber quem  seu pai.
	Fez isso por mim?
Ela sacudiu a cabea, incrdula, incapaz de acreditar em altrusmo num homem que calculava tudo.
	Temos mais em comum do que voc pensa  disse ele, triste.  Eu tambm no sou filho do homem com quem minha me era casada. Uso o nome dele, mas no sou seu filho e soube disso bem cedo.
Lynn estava assombrada. Jamais tinha havido um sussurro sequer sobre o passado escandaloso dele. Outra famlia secreta? S ento soube o que ele queria dizer com viajando na mesma estrada e porque a via como uma companheira de viagem.
	A verdade de uma situao assim no  fcil de aceitar e um nome se torna importante  continuou ele.  O nome do seu pai  Mrio Vangelli. Ele e a famlia moram em Npoles. Posso dar-lhe o endereo se quiser visit-los.
Vangelli... Richard tinha razo. Era bom ter um nome em vez de um branco.
	E voc?  Fitou-o, curiosa.  Descobriu su pai verdadeiro?
	Sim. Ele estava casado com outra mulher. Tinha famlia. No sabia que sou seu filho e eu no lhe disse.  A expresso dele endureceu.  Como o seu pai, ele engravidou minha me e foi embora.
No caso dela, fora pago para ir.
	No iria me sentir bem visitando-o, mas obrigada por me ter falado dele, Richard.  melhor saber.
Ele assentiu, um entendimento em seus olhos que partilhava as cicatrizes de ser um filho bastardo, que no pertencia ao casamento dos pais.
	Eu poderia nunca ter voltado  murmurou ela.  E voc teria conseguido essa informao para nada.
Richard sacudiu a cabea.
	Informao  sempre til.
O cinismo retornava com a amarga observao. Uma informao que ele poderia usar contra a me dela.
	Claro  concordou Lynn.  Saber  poder.
	Eu sabia que voc iria voltar  afirmou ele, confiante , quando se sentisse pronta.
	Sorte sua ter sido agora  riu ela , se no, voc no teria outra sada se no casar-se com uma das minhas irms.
	A sorte nada tem a ver com isso. Se voc no tivesse vindo, eu iria procur-la.
O corao dela contraiu-se. Ele a queria, mesmo, e no s outras.
	Primeiro teria que descobrir onde eu estava...
	Eu sempre soube, Lynn. Assim que vi que havia ido embora, procurei saber se estava a salvo e se continuava a salvo, onde quer que fosse ou estivesse. No houve um s dia nos ltimos seis anos que eu no soubesse de voc e tinha certeza que se arranjava por si mesma. Eu sabia qual avio tomou em Broome, da escala em Perth e a que horas chegou a Sdnei ontem  noite. Sabia que ia estar aqui hoje.
Essas declaraes a chocaram mais do que as anteriores. Ou talvez culminassem o efeito delas.
	Tinha algum me espionando?
	No. Espionando, no. Apenas verificando se voc estava se arranjando bem, se no precisava de ajuda. No houve interferncia na sua vida, nem em qualquer coisa que decidiu fazer.
	Por que fez isso?
Veio de novo, aquela breve sensao de algo profundo, escuro e perigoso atrs do azul dos olhos dele.
	Porque eu me importava e ningum mais se importou.
At mesmo a voz dele estava carregada de ferocidade, sugerindo sentimentos que ainda no conseguia controlar.
Richard aproximou-se mais e tocou-lhe o rosto, os dedos percorrendo a pele de leve.
	Pense, Lynn  comandou, o poderoso impacto de seu olhar mantendo-a imvel.  Voc veio procurar justia...
Era verdade.
	Case-se comigo e ter o que a sua me a sacrificou para ter... o que suas irms querem. Ter tudo que Durant lhe negou e algo mais. Que maior justia do que obter aquilo pelo que foi concebida?
A cabea dela girava.
	Ofereo-lhe as chaves do imprio Durant, de tudo que Lawrence construiu para ser poderoso, e ningum mais ir escarnecer de voc, Lynn, ou trat-la com pouco-caso. Como minha esposa, voc ser minha rainha, em todos os sentidos.
At eu lhe dar um filho, pensou ela.
Sempre havia um preo para alcanar o pote de ouro.
 Quero que seja a minha rainha.  A rouquido na voz dele tocou o corao dela.  S voc pode me satisfazer. S voc. Somos da mesma espcie, Lynn.
Ele se aproximou mais, um brao rodeando a cintura dela, a mo em seu rosto segurando-lhe o queixo, mantendo-o erguido. E ela soube que Richard ia beij-la. Sabia que ele queria seduzi-la, mas no pensava em det-lo.
Todo seu ser vibrava em antecipao.

CAPITULO IV

O primeiro roar dos lbios de Richard nos iela, Lynn prendeu a respirao. O contato acariciante e gentil a fez concentrar-se em absorver cada segundo de prazer. Ele no a estava beijando. Ela teria reagido mal se ele a agarrasse e beijasse com fora dominadora. Tocava-lhe os lbios, apenas, permitindo que ela relaxasse.
Lynn o havia bloqueado em seus pensamentos todos aqueles anos comparando-o com Lawrence Durant, no entanto naquela noite tivera de reconhecer que seu dio por Richard surgira da decepo por ele no ter agido como ela queria. Na mentalidade da adolescente ele tinha fora para lutar contra seu pai, para libert-la e ser seu heri, mas no fizera isso. No como ela queria que fizesse, no o bastante para satisfazer-lhe as necessidades de ento.
Ser que a satisfaria agora?
As delicadas carcias a incentivavam a corresponder e seus lbios no demoraram a entreabrir-se permitindo que o beijo se aprofundasse prometendo tudo... tudo que ela sempre quisera e ainda queria.
Ser que aqueles sentimentos tinham a ver s com Richard Seymour? Ser que aquele estranho libertar-se das antigas barreiras tinha inconscientemente se fixado em exigncias que s ele atenderia?
A mente e o corpo dela estavam to imersos no caos que Lynn no percebeu que a vontade de ficar mais perto, de manter aquele momento, a fizera passar os braos no pescoo dele. Ento, Richard apertou-a contra si, fazendo seus corpos amoldarem-se e seus lbios apoderaram-se dos dela com maior intimidade, provocando uma tempestade de fogo.
O calor expulsou o vazio gelado de no ser querida e despertou um desejo antigo que ela no percebera e que revelou-se na ansiosa correspondncia de sua boca, na exultao ao contato fsico, nos seios esmagados contra o peito dele, na excitante presso do despertar do sexo de Richard. Ele a queria e sentiu que reagia ao seu desejo com todas as fibras do seu ser.
Foi Richard que interrompeu aquele enlevo, erguendo a cabea de repente e respirando to forte que seu peito alteava-se a cada inspirao, tocando mais os seios dela. Foi imensa a frustrao quando ele parou o que havia comeado. Ela fitou-o, confusa, percebendo tenso no rosto dele, no entendendo nada a no ser que deixara de beij-la.
Ele moveu a mo que segurava a cabea dela e acompanhou o desenho de seus lbios com a ponta dos dedos. Os olhos de Lynn clarearam o bastante para notar o brilho de satisfao triunfante nos dele.
	E bom, no , Lynn? Chegou a nossa vez.
Controle, pensou ela. Ele queria controlar tudo, como Law-rence Durant, porm nunca mais se submeteria a isso. Nunca! O doce e clido caos transformou-se em rebeldia.
Ele dirigira tudo a seu jeito, seguindo-a ao jardim, dando-lhe informaes, aproveitando a qumica que havia entre eles. Pois bem, no queria que Richard controlasse isso, que determinasse quando e como iria satisfaz-la.
Todos aqueles anos espionando-a, esperando que ela voltasse, pensando que poderia manipul-la como bem quisesse sempre que apertasse os botes certos... Oh, no. Era a vez de ela apertar os botes!
	Se parece to certo para voc, Richard  desafiou , por que no agora?
	Voc quer agora?
A ansiedade que se espelhou nos olhos dele provocou uma turbulenta mistura de medo e excitao em Lynn. O que estava fazendo? Oferecendo-se? O desafio fora um impulso vingativo. Ela no parara para pensar no que poderia acontecer e ele no esperara para responder.
Richard levou-a consigo at a porta da casa de vero, abriu-a e entraram. No momento seguinte os ps de Lynn estavam de novo no cho, a porta fechada e os lbios dele a tocavam despeitando um prazer que lhe parecia certo, to certo que ela abandonou-se querendo que o beijo continuasse. E correspondeu com calor, deixando o frio l fora.
As coxas dela estavam encaixadas com as dele enquanto as mos fortes percorriam-lhe o corpo, o toque quente e sensual acompanhava as curvas, indo da profundeza da cintura para a generosidade dos quadris, puxando-a mais para perto. Suas bocas se colaram e ele a beijou numa promessa de lhe dar tudo que ela queria.
Mas era o que Lynn queria? Aquilo nunca lhe acontecera e ela no sabia o fim, no tinha experincia a respeito. Talvez fosse errado, mas sentia-se levada por uma fora desconhecida e no queria opor-se a ela.
Queria deixar que ele a ensinasse. Deixar que fosse o primeiro. E se no lhe desse o prazer que prometia ela ficaria sabendo j, no? Ento, correspondeu ao beijo com todo fogo que se acendera em seu corpo.
As mos deslizaram de novo para a cintura e desabotoaram o boto do casaco do costume, abrindo-o e ela ficou contente por no estar usando suti. Estava apenas com um body de seda sobre a pele o que permitia que as mos dele envolvessem os seios tocando-os com dedos e palmas, fazendo-a sentir-se incrivelmente sensual e desejvel.
As mos deslizaram por cima da seda, tocando, acariciando, esfregando, excitando... Ento, Richard afastou o rosto, abaixou-se e Lynn sentiu o bico do seio envolvido pelos lbios quentes. Ele beijou, sugou e um agudo prazer invadiu-a. Enterrou os dedos nos cabelos dele, puxando e apertando, querendo que aquele delicioso arco de sensaes continuasse vibrando.
Jamais sentira algo sequer parecido. Seria por Richard ou por sua vulnerabilidade que, levada ao mximo nesse dia, tornava tudo mais intenso do que seria normalmente? Seria porque ela deixara de lutar como sempre lutara? No sabia e, na verdade, no se importava.
Lynn mal notou que sua saia era puxada para cima, mas sentiu as mos dele movendo-se entre suas pernas, abrindo caminho at o local em que a meia terminava e a pele nua comeava, chegando ao quente e mido ponto entre suas coxas. Soltou os colchetes que fechavam o body.
Ento, a barreira de seda desapareceu e o toque foi completo, um toque que acompanhava o mesmo ritmo da boca sobre o seio, despertando nela o desejo de mais.
Lynn sentia-se derreter. Inclinou a cabea para trs at que encostou na porta, numa cega busca de sentir algo slido. Abriu os olhos. Estava escuro dentro da casa de vero, todas as venezianas fechadas. Era como um lugar secreto, especial. Ningum veria o que estava acontecendo com ela. E Lynn tambm no queria ver, apenas sentir. Fechou os olhos bem apertados, e a escurido dentro dela pareceu liberar-se num selvagem, atordoante caos em que pairava uma profunda lascvia ao saborear o que Richard fazia com seu corpo.
A nossa vez, ele dissera, mas realmente era a vez dela... sua primeira e talvez nica vez.
Todo seu corpo clamava por satisfao completa. Um gutural protesto escapou-lhe da garganta quando a boca de Richard abandonou o seio, mas em seguida cobriu a dela e sua lngua prometeu a invaso que Lynn queria. De repente, a mo dele no estava mais entre suas coxas. Outra coisa deslizava pela maciez de sua intimidade, algo rijo, forte, e todos os nervos do corpo dela ficaram alertas.
Um brao ao redor de sua cintura a erguia e sustentava. Lynn arqueou as costas e o sexo ardente penetrou o dela. Ao sentir a resistncia Richard parou de forar, porm Lynn agarrou-se aos ombros dele, arqueou-se mais e ordenou, com voz rouca:
 Faa!
Ela no queria perder o controle sobre ele. Era quem controlava, quem dirigia aqueles momentos. A deciso era dela, no dele.
E Richard fez o que ela pedia. Uma aguda porm breve dor, a frgil barreira foi ultrapassada e ele a possuiu completamente levando-a a uma exploso de sensaes. Ondas de choque prazeroso a percorriam superando tudo que sentira at ento. Depois, foram ondas sucessivas de prazer com a sensao de ele preenchendo-a toda, mexendo os quadris num ritmo que combinava com o dela, revelando-lhe uma nova vida. Nessa vida no se achava sozinha, no era vazia, porque ele estava com ela, dentro dela, e podia senti-lo misturando-se a todas as clulas do seu corpo.
Houve um momento de loucura extrema em que tudo o mais desapareceu ao redor deles permanecendo apenas o gozo profundo e incomparvel.
Depois de um breve momento de exttica harmonia ele retirou-se dela devagar, cuidadosamente, e por algum motivo Lynn no lamentou a separao, ainda envolta nas sensaes clidas e confortadoras, certa de que aquilo no poderia ser tirado dela. Iria conservar consigo aqueles momentos, fosse o que fosse que o destino lhe reservasse.
Sua primeira vez fora empolgante e com um homem com quem jamais imaginara ter intimidades. Richard... Richard Seymour lhe mostrara como era. Ou como podia ser entre os dois.
Ergueu as plpebras o bastante para ver o que ele fazia. Enquanto ela permanecia largada sobre um dos sofs cobertos com um lenol, ele ajeitava as roupas. Depois abriu a arca que servia de mesa entre duas poltronas, pegou um pacote de guardanapos de papel, retirou alguns e limpou as consequncias da virgindade perdida.
	Machuquei voc, Lynn?  perguntou, suave.
	No  respondeu ela.
Procurava dominar a averso pelo que ele fazia... to prosaico, to clnico que a trouxe de volta  Terra com um choque. O caos emocional e selvagem fora findar naquela... naquela desordem, naquela sujeira que lhe roubava a dignidade.
Melhor no dizer nada, pensou e desejou ter perdido a virgindade em outras circunstncias. Mas com quem? S Richard a fizera sentir que era direito.
No entanto, ele estava no controle de novo, mais no controle do que nunca porque ela lhe permitira. De algum modo tinha que faz-lo parar com aquilo, faz-lo ver que no era como ele pensava.
Os lbios de Richard curvaram-se num pequeno sorriso de zombaria de si mesmo.
	No era esse o modo que pensei possuir minha noiva...
	Noiva?  Richard ter sido o primeiro no queria dizer que juntaria sua vida  dele para sempre.  Eu ainda no disse que vou me casar com voc.
Lynn o lembrava disso porque lutava instintivamente contra qualquer compromisso que desse a ele poderes sobre ela. Ele deu-lhe um intenso, sombrio olhar.
Mas vai dizer.
Ela no tinha certeza disso. Richard distraiu-a esfregando suas coxas com o guardanapo e a fez estremecer. Inclinou-se e deu-lhe um beijo no ventre, um beijo longo, lembrando-a de quanto tinham estado unidos. Mas aquilo no era a resposta para tudo, pensava Lynn.
Ele puxou o body para baixo, abotoou-o e desceu a saia dela. Beijou-lhe os seios sensualmente, tambm, antes de devolv-los  priso de seda.
Voc  uma mulher incrivelmente bonita, Lynn  murmurou.
Em seguida, curvou-se e beijou-a com delicadeza, dizendo-lhe que aquilo tudo fora um comeo, no um fim.
	Pronta para sair?  perguntou.
	No. V voc...
Ela precisava ficar distante dele para tentar pr em ordem a confuso em sua mente. No tinha certeza de nada agora, a no ser que fizera aquela coisa deslumbrante com ele e, agora, tinha que pensar nas consequncias.
	Sem voc, no vou.  A determinao brilhou nos olhos de Richard.
	Vo sentir a sua falta, no a minha  argumentou Lynn, no querendo que ele lhe desse Ordens.
	Quero voc a meu lado  ele foi categrico.
Ela sacudiu a cabea, o medo de ser manipulada envolvendo-a.
	No estou pronta para enfrentar isso com voc, Richard.
Ele franziu as sobrancelhas.
	No tenho inteno de fazer um anncio pblico, Lynn. Eu s quero...
Ela o fez calar colocando os dedos sobre os lbios dele, sua agitao grande demais para ouvir palavras persuasivas.
	Deixe-me aqui  pediu.  Quero tempo para me recompor.
Richard no gostou daquilo. Ela percebeu o conflito entre
o propsito e a conscincia de estar indo depressa demais. Viu a deciso mesmo antes de ele falar.
	Jante comigo esta noite. Vou peg-la no seu hotel. A que horas est bem para voc?
Ele sabia qual era o seu hotel.
O caador, pensou de novo. Mas ele no pode tirar meu direito de escolha.
Havia muito que pensar a respeito... e que fazer tambm. A lembrana de por que comparecera ao funeral insinuou-se na mente dela. Queria sentir-se em famlia. Talvez conviesse a Ri-chard que no houvesse relacionamento dela com a me e as irms, porm Lynn no iria desistir disso to facilmente. Viera para ali estar com elas, no com ele, e apesar de tudo que Richard dissera ainda queria ver se significava alguma coisa para as pessoas com as quais passara a maior parte de sua vida.
	Voc quis fazer amor comigo, Lynn  disse Richard, olhando-a com ateno.
	E no me arrependo  assegurou ela, forando um sorriso.
No entanto, casamento era algo muito diferente e no queria
ser empurrada para ele. Precisava conhecer mais de Richard Seymour, saber o motivo do brilho que tinha visto em seus olhos naquela tarde.
	Podemos jantar juntos, sim  decidiu.  s oito horas est bem.
	Otimo.
Alvio e alegria nos olhos dele.
	Nos vemos mais tarde, ento.  Ela sorriu e sentou-se no sof para encorajar a sada dele.
Richard observou-a, depois assentiu como se houvesse se convencido que no havia erro quanto s intenes dela.
	Nos damos bem juntos, Lynn. No deixe que nada que sua me ou irms digam alterem isso.
Lynn no concordou, nem discordou,-no querendo prolongar o encontro. Quando o viu sair pensou que cada qual carregava uma diferente verdade consigo e nem sempre a expressava.
No tinha certeza da verdade de Richard.
No tinha certeza da prpria verdade... pelo menos no que se referia a ele.
De uma coisa -tinha certeza: havia sido arrebatada por uma gama de percepes diferentes naquela tarde e no estava disposta a fazer julgamentos apressados sobre sua famlia. Talvez houvesse sido uma adolescente muito absorvida por si mesma para ver ou compreender as presses sobre suas vidas. Era impossvel saber o que se passava dentro de algum a no ser que esse algum quisesse demonstr-lo. Jamais teria imaginado que Richard no era um Seymour por nascimento.
Ele fechou a porta atrs de si, ento a casa de vero ficou em silncio e na penumbra. Um pouco de luz filtrava-se pelo domo central do teto, naquele dia cinzento, suficiente apenas para quebrar a escurido.
Lynn olhou ao redor reconhecendo os mveis e surpreendeu-se por eles no haverem mudado, se bem que dificilmente algum usava aquele pavilho. Lembrou-se que era ali que se refugiava quando a tenso era demais. Sabia que na casa de vero no seria perturbada.
Um lugar perfeito para intimidades secretas, pensou, sorrindo ironicamente de como servira para Richard no momento crtico.
Ento, um pensamento fez seu corao alterar-se.
Ser que havia sido ali que ela fora concebida por sua me e o jardineiro italiano?
Levou as mos ao estmago. No!, gritava sua mente. Assustada, contou os dias depois da ltima menstruao. Sete. Apenas sete. Estava salva de uma gravidez. A poca de fertilidade seria mais adiante. Um grande alvio a envolveu. Se Richard estava contando com um filho para obrig-la a casar-se com ele iria ficar desapontado. No entanto, no poderia ter calculado engravid-la, no? No usara proteo, mas fazerem amor no tinha sido deciso dele e Richard no podia saber se ela estava usando algum anticoncepcional. Nem mesmo imaginara que ela ainda era virgem. E quando percebera hesitara. No, no houvera premeditao por parte dele.
Lynn teve uma sensao de alvio, seguida por firme resoluo.
No ia repetir a vida de sua me, tendo filha aps filha em busca do desejado menino. O sexo de um filho jamais iria querer dizer para Lynn o que queria dizer para Lawrence Durant. Um filho devia ser amado fosse menino ou menina.
Ser que existia algum amor para ela naquela casa, por pouco que fosse? Precisava passar algum tempo com sua me e as irms, sem ningum por perto, para que a verdade pudesse surgir livre de qualquer medo ou jogo.
Ento, quando a noite chegasse...
Sim, queria estar com Richard naquela noite. Precisava dele para lhe mostrar mais de si mesma, para tornar mais certo o que havia acontecido naquela tarde entre os dois.
Se fosse possvel.
CAPITULO V

Finalmente a manso Durant ficou vazia de convidados, menos de Richard Seymour. Para frustrao de Lynn, sua me agarrara-se ao brao dele insistindo em que tomasse caf com a famlia. Suas irms haviam se reunido ao redor, ajudando a me. E ele aceitara mergulhando Lynn num tormento de dvidas sobre suas intenes.
Lembrou-se do que ele dissera na casa de vero. Nos damos bem juntos, Lynn. No deixe que qualquer coisa que sua me ou irms digam altere isto.
Ser que ele ficara para proteger a vantagem que pensava ter conseguido sobre ela? Quando voltara para casa evitara chegar perto dele, precisando recuperar a compostura antes de encarar a famlia na privacidade que queria tanto. Agora Richard a privava disso!
A promessa de jantar com ele  noite no fora o bastante, pensou com ressentimento. Ou ser que ele estava jogando outro trunfo tomando cuidado para no ofender suas irms para o caso de ela negar-se a casar com ele? Afinal, no tinha garantias que ela concordava com seus planos.
Lynn tratou de colocar as preocupaes de lado enquanto ia com os outros para uma sala pequena e bem ntima. Fosse qual fosse seu propsito, Richard no iria ficar ali para sempre. Ela simplesmente tinha que esperar mais um pouco.
Queria tanto que uma das irms andasse ao seu lado e lhe desse o brao ou que apenas falasse com ela, que desse uma ideia do que achavam do seu regresso. A solido que sentia era pior agora do que quando morava ali. Ser que a estavam evitando de propsito ou cabia a ela dar o primeiro passo?
Lynn livrou-se da inibio e andou mais depressa para alcanar Nadine que, aos vinte e seis anos, era a mais prxima dela em idade.
	Podemos conversar, Nadine?  tocou o brao da irm.
	Agora no, Lynn.  Ela franziu o nariz e sacudiu a cabea agitando os loiros cabelos.  Mau gosto ter voltado hoje, no?
Lynn ficou abalada pela acusao.
	No pensei que fossem se importar.
Nadine olhou-a de alto a baixo.
	Bancando a Cinderela? Onde arranjou esse costume? Num brech?
Seria to evidente que suas roupas no eram caras? Lynn sentiu o rosto arder. No pretendera bancar a Cinderela, se bem que comparada com a irm, que usava um conjunto de couro macio e botas de meio cano combinando, as roupas dela pareciam baratas.
	Viu o que voc fez me atrasando?  sibilou Nadine quando entraram na sala de estar.  Felicity tomou conta de Richard.
A elegante irm mais velha acomodava-se no sof com ele.
	Por que no desaparece de novo, Lynn? Ningum a quer aqui.
Espantada com a hostilidade de Nadine, Lynn hesitou. A irm adiantou-se e foi servir o caf que j havia sido trazido. Cheia de sorrisos melosos, perguntou a Richard como preferia.
	No fique a parada, Lynn  reprovou a me.  Entre e sente-se.
Indicou uma poltrona prxima  que ela se acomodara, no outro extremo da sala. Lynn sentiu-se melhor. Pelo menos sua me estava disposta a querer a sua companhia, agora que as obrigaes de anfitri tinham terminado.
Enquanto se esgueirava entre os sofs ocupados pelas irms, lembrou-se que Nadine sempre a considerara um estorvo, principalmente quando lhe diziam: "Tome conta da sua irmzinha". Agora que eram adultas, esperava que fosse diferente. No entanto, parecia que Nadine no a suportava.
Lynn sentou-se e sorriu, agradecida, para a me, porm Alicia no a olhava. Observava suas outras filhas e Richard, dando-lhe a desconfortvel impresso de ter sido removida da cena, colocada naquela poltrona. Minutos se passaram e a me no se voltou para ela. A evidncia de ser ignorada era profundamente desanimadora, mas resolveu esperar.
Nadine trouxe uma xcara de caf para Alicia, requebrando os quadris enquanto andava e abaixando-se de modo que a saia curta oferecesse uma provocante viso. S que Richard no estava olhando, o que divertiu Lynn. Sua ateno estava focada em Felicity que tinha um brao apoiado sobre o encosto do sof de modo a tocar o ombro dele com a ponta dos dedos enquanto conversava.
Felicity, a primeira filha, havia sido "A Princesa". Tinha uma beleza de porcelana. Tez plida, quase translcida, olhos de um azul-violeta, feies perfeitas e cabelos loiro-acinzenta-dos, presos num coque atrs da cabea naquele dia. Alta, com pernas longas e bem-feitas, usava um soberbo vestido-casaco em crepe de l, com gola e punhos de cetim. Para a adolescente Lynn, Felicity havia sido o modelo perfeito e inatingvel. Continuava perfeita aos trinta anos.
O olhar de Lynn foi para Vanessa, que estava com vinte e nove. Ela havia tirado os sapatos e estava langorosamente enrodilhada no sof, o corpo curvilneo coberto por renda preta. Seus cabelos, cor do trigo maduro, chegavam at os ombros numa gloriosa massa de ondas e cachos. Os olhos eram de um azul-acinzentado, com clios castanhos, muito longos, que lhe davam um ar sexy, e a boca bem-feita, cheia, fazia um muxoxo de desprazer para a irm mais velha.
Felicity e Vanessa se haviam casado com homens ricos enquanto Lynn ainda estava l. Fora descartada como dama de honra das irms porque cabelos pretos no iriam ficar bem nas fotografias.
Seus respectivos maridos no estavam presentes. Divorciadas, explicara a me brevemente quando Lynn notara a ausncia deles no funeral.
Caroline achava-se no extremo do sof adjacente quele em que Richard estava sentado. Seus cabelos loiro-dourados tinham o estilo pajem, logo abaixo das orelhas, e ela estava muito sofisticada no conjunto de veludo preto. Era alegre e de feies midas. Tinha lngua afiada, tambm, lembrava-se Lynn. Ser que era o motivo de ela ainda no ter se casado aos vinte e sete anos?
Nadine sentou-se ao lado de Caroline, sem ter servido caf para Lynn. Ali estavam as quatro irms, todas disponveis para Richard e empenhadas em chamar a ateno dele. Ser que o queriam ou precisavam dele?, imaginou ela.
Ignorando o contedo do testamento de Lawrence Durant, Lynn no tinha ideia do que havia sido deixado para a esposa e as filhas. Ele deveria ter acrescentado clusulas adicionais ao seu legado, puxando cordis financeiros j que no podia mais manejar os pessoais. Se assim fosse, ela estaria fora do testamento e, portanto, no se achava amarrada a nada. Por fim era livre para fazer seu futuro como quisesse.
A pecha de Cinderela voltou-lhe  mente. O conjunto que vestia havia sido comprado numa loja de departamentos em Perth e, com certeza, no era de um estilista famoso. Os sapatos de salto mdio, simples, no eram italianos, ao contrrio do seu pai verdadeiro, pensou com secreta ironia. Ela vivia de acordo com um oramento. Suas irms, no.
A vida em casa e a convivncia com colegas de uma escola exclusiva at a adolescncia lhe haviam dado educao e boas maneiras. Mesmo tendo ficado distante daquele tipo de vida durante anos, Lynn identificava os diferentes estilistas.
Sua me usava um conjunto Chanel. O vestido-casaco de Felicity era sem dvida uma criao de Carla Zampati. O vestido de renda de Vanessa era desenho de Collette Dinnigan. O conjunto de veludo de Caroline era de Trent Nathan e o de couro, de Nadine, com certeza era de Sab.
Lynn sabia que olhava para milhares de dlares sem mesmo incluir neles os sapatos, chapus e bolsas. No que se importasse. Aquilo era simplesmente indcio de um estilo de vida rico que todas elas desejavam manter. Imagem, sabia, era importante para a vida que levavam e Richard poderia mant-las do modo a que estavam acostumadas. No entanto, apesar de todo esforo delas para atrair e segurar sua ateno, pelo que Lynn podia ver, ele era totalmente imparcial para com elas. Bem-educado, atencioso, no entanto contido. Estava deixando sua escolha em aberto, imaginou Lynn detestando-se por esse pensamento.
Queria ser especial para ele.
No entanto, por que deveria ser?
O motivo pelo qual ele pedira primeiro a sua mo voltou a importun-la. Ser que estava cansado de suas irms? Ser que ela lhe parecia mais fcil de manejar? Ou estaria sendo levado simplesmente por qumica sexual?
Sentiu-se inquieta ao lembrar-se da alta voltagem do relacionamento deles na casa de vero.
Desejo... seria esta a chave do enigma?
Olhou para Richard de modo objetivo, precisando saber o que o dirigia. Como se sentisse o olhar dela, ele observou-a rapidamente, com expresso enigmtica, depois colocou a xcara no pires e se levantou, sorrindo para Alicia.
	Obrigado pela hospitalidade...
	Por que no fica para jantar conosco, Richard?  convidou ela.

	Muita bondade sua, mas preciso ir  foi a resposta firme.
Felicity saltou em p.
	Eu tambm tenho que ir. Vou com voc, Richard.
Ele franziu a testa e depois olhou para Lynn.
	No est esquecendo que no v sua irm h seis anos?
O corao de Lynn saltou. No queria das irms nada que fosse obrigatrio e no mesmo instante entendeu que para ele no importava o que ela queria.
	Oh, Lynn...  Felicity deu uma risadinha.  O que teramos a conversar depois de tantos anos longe?  Seus olhos fixaram-se na ovelha negra, gelados.  Nunca tivemos nada em comum, no , meu bem?
O ar de concesso fez Lynn ficar muda.
	Pode ser diferente agora, Felicity.  O tom de Richard era perigosamente macio.  Por que no fica e tenta descobrir?
Lynn cerrou os punhos. Tantas vezes ela quisera que ele fosse seu heri e Richard resolvia ser agora, num momento muito imprprio. Ou estaria deliberadamente expondo o nada que sabia existir ali?
	Para qu?- contraps Felicity.  Provavelmente Lynn vai embora, de novo, amanh.
Vanessa ergueu-se sinuosamente do sof e enfiou seu brao no de Richard, batendo as plpebras e tentando flertar com ele.
	Por que no vai jantar comigo em minha casa, Richard? Tenho certeza que Lynn quer conversar com mame.
Ele fitou Vanessa com frieza.
	Obrigado, mas tenho outros planos.  Fez um cumprimento geral d cabea enquanto soltava o brao.  Por favor, desculpem-me. 
As quatro irms observaram a sada dele, aborrecidas. Nenhuma delas o impressionara como queriam e ele no lhes dera chance para que tentassem faz-lo.
De repente Lynn percebeu que Richard manejara para deix-las todas juntas. Por ela. Estava lhe dando o que queria, conforme prometera. Seu corao agitou-se diante dessa prova de quanto se importava com ela. Ou seria outro movimento calculado para demonstrar-lhe que no encontraria ali o que queria da sua famlia? Isso j era miseravelmente bvio.
No momento em que a porta fechou-se atrs dele, Caroline olhou para a me.
	Honestamente, mame, voc no podia ter mantido Lynn longe daqui por mais algum tempo?  indagou, cida.  Richard sempre teve uma quedinha por ela.
Uma quedinha? Ser que havia um pouco de corao no pedido de casamento dele?
	Acha que teria tido a ateno dele se eu fizesse isso, Caroline?  retorquiu Alicia, cansadamente.
O corao de Lynn confrangeu-se mais. Poltica. No se importavam com ela.
	O que voc quis dizer com... uma quedinha?  insistiu Felicity olhando incrdula para Lynn.
Caroline fez um gesto de descaso.
	Se vocs no estivessem to cheias de si mesmas teriam notado que Richard sempre desviava a ateno de Lynn quando papai a atacava na frente dele. Em geral fazia alguma pergunta a vocs, daquelas bem lisonjeiras, mas na verdade ele estava protegendo nossa pobre irmzinha.
Era verdade, Lynn reconhecia agora.
O queixo de Felicity ergueu-se, altaneiro.
	Richard est interessado em mim. Sempre se interessou por mim.
	Oh, no venha com esses ares pra cima de ns!  saltou Vanessa.  Ele apenas  bem-educado, no h nada de fascas entre vocs.  Olhou para Lynn.  E por que voc ficou o dia inteiro rondando por aqui, como um corvo esperando para atacar? Qual  o seu jogo, Lynn?
	Uma parte da propriedade, se ela puder conseguir  ironizou Nadine.  Olhem-na! Provavelmente arranjou essas roupas num bazar de caridade.
	Ela no tem que ficar para a leitura do testamento  declarou Caroline,  levantando-se tambm.  Ser melhor pag-la para que v embora, mame. Ela pode estragar tudo.
	No seja ridcula, Caroline!  atacou Vanessa.
	No conseguiu convencer Richard a ir  sua casa, no?
 reagiu Caroline.  Pergunte-se por qu, Vanessa.  Apontou para Lynn.  Ele est pensando nela!
As quatro irms a fuzilaram com o olhar. Felicity a fitou de cima.
	Bem, na verdade, voc no tinha que estar aqui, Lynn.
Nadine acrescentou, impiedosa:
	Foi repudiada e deserdada.
Vanessa caoou:
	No posso v-la como uma ameaa, mas prefiro que Richard no tenha distraes. Quanto antes voc desaparecer, melhor.
Caroline foi rude:
	No precisamos de voc. V embora, Lynn, e fique longe daqui.
Tendo dito isso, Caroline saiu da sala seguida pelas irms em rpida sucesso. Lynn olhou-as ir, abalada demais para dizer alguma coisa. De certa maneira, entendia ter contrariado o desejo delas chamando a ateno de Richard, mas nenhum raciocnio podia aliviar a dor daquela maldosa e fria rejeio.
No a queriam.
Ningum se importava com ela.
Ningum tinha o menor interesse nela.
O chupim tinha voado para longe e todos haviam ficado felizes com isso.
No silncio das devastadas esperanas soou a voz de Alicia,  desanimada.
	O que voc quer aqui?
Lynn estava olhando a porta que Felicity fechara decididamente depois de sair atrs das trs irms. Quatro meio-irms, lembrou a si mesma, se bem que isso no fosse consolo para o fato brutal. Foi preciso um esforo concentrado para olhar a me que devia estar lamentando por sua quinta filha ter trazido problemas.
O rosto de Alicia estava duro, os olhos expressando desaprovao. Um peso enorme desceu sobre o corao de Lynn. Era a mesma coisa, mesmo com Lawrence morto. No havia lugar para ela ali. Nunca haveria.
	O que pensa que quero, me?  conseguiu dizer  mulher que lhe dera  luz.
	Por que no me diz?  foi a resposta.
Uma resposta que no levava a nada, uma- resposta que colocava uma fria, impessoal distncia entre elas.
Lynn no conseguiu continuar olhando para a me. Sabia, sem sombra de dvida, que Alicia esperava que ela pedisse uma parte da herana de Durant. Seu olhar circulou pela sala, uma sala em azul e branco sem calor, apenas com mveis, estofados, tapetes e obras de arte que custavam um monte de dinheiro, numa flagrante exibio de poder de compra para os outros admirarem e invejarem. No havia corao nela, alis em lugar algum da luxuosa manso.
	Pensou em mim alguma vez durante os seis ltimos anos, me?  perguntou, querendo saber que fora ao menos um pouquinho lembrada.
	Claro que pensei em voc  foi a resposta morna.  Desejei que fosse feliz na sua escolha e fizesse uma vida sua.
Desde que longe daqui, pensou Lynn, e provavelmente aliviada por seu "erro" ter sido removido.
	Preocupou-se por mim?
Uma breve pausa, depois a resposta pensada.
	Respeitei a sua escolha, Lynn. Tinha certeza que entraria em contato conosco, se precisasse.
O que significava nenhuma atitude por parte de Alicia.
	Tentou imaginar como eu iria sobreviver sem a sua ajuda?
 indagou determinada a ser absolutamente justa no julgamento final.
	Bem, voc sobreviveu ou no estaria aqui agora.
A entonao seca fez Lynn olhar a me de frente de novo.
	Voc no se importa, no ?  acusou, friamente.  Voc no tem o menor interesse no que eu fiz, onde estive, como me arranjei.
Um gesto de impacincia.
	Voc sempre tinha a opo de voltar para casa, Lynn. Ningum a expulsou.
Casa? Sob a tortura mental e emocional que a me jamais tentara fazer parar? Lynn quisera acreditar que a negligncia e indiferena dela eram defensivas, por medo da reao de Lawrence, porm j no podia mais acreditar nisso.
	Eu tinha dezoito anos, me  lembrou-a Lynn.  Estava em estado de choque, em pedaos, por saber que era filha de outro homem.
O silncio ampliou a lembrana daquela noite horrvel, as odiosas revelaes. A me dela gritando.
	Voc me fez fazer isso, Lawrence, com sua mania de querer um menino!
O comentrio custico de Lawrence.
	E achou que eu ia aceitar uma filha apenas sua?
E assim por diante, a discusso, as recriminaes, a dor, nenhum deles ligando para o que ela sentia... o objeto da briga deles... o objeto que se interpusera entre eles... o objeto de fracassadas ambies, que seria sempre ofensivo para os dois. Entendera isso naquela noite.
Ainda assim, naquele momento, procurou no rosto da me a indicao de algum sentimento a respeito dela.
	Quando descobriu que eu tinha ido embora, no se perguntou se estava em condies de sobreviver sozinha?
Os olhos de Alicia endureceram.
	Foi escolha sua. Eu tinha meus prprios problemas naquela poca.
	Ento, no se preocupou comigo. Eu era, digamos, um problema a menos para voc.
	Voc sempre foi um problema, Lynn  foi a resposta rida.
	Foi muito fcil ver-se livre de mim...
	No ponha palavras na minha boca  explodiu Alicia.
Lynn no quis deix-la escapar.
	No acredito que tenha procurado a polcia para saber do paradeiro de sua filha  pressionou.
	No seja absurda! Lawrence jamais permitiria isso.
	Poderia ter contratado um detetive particular para saber se eu estava bem.
Como Richard havia feito e ele declarara que fizera isso porque se importava. Fora o nico a se importar. Alicia suspirou, impaciente com a inquisio.
	Achei que voc telefonaria se estivesse em alguma encrenca.
O tom de voz dela estava prximo da exasperao.
	E se eu no pudesse telefonar, me? Voc pensou nisso?
 Oh, pelo amor de Deus, Lynn! O que quer? Est aqui, no? S e salva!
No graas a voc ou a algum membro da famlia, pensou Lynn, amargamente. Seu olhar percorreu o conjunto Chanel.
	Eu s estava pensando que o valor da sua roupa de luto daria para pagar um investigador para me procurar por algum tempo... caso se importasse comigo.
Alicia inclinou-se para a frente, batendo na tecla que conhecia, mais do que ningum.
	Isso mesmo! E voc pensa que tem direito a uma parte do dinheiro e foi por isso que veio, agora que no tem que enfrentar Lawrence.
Por vrios segundos a repulsa de Lynn foi to forte que ela no pde falar. Seu estmago queimava. A mente explodia sob o peso que carregara e suportara na penumbra de um mundo sem amor, sem justia. No tinha certeza de saber pronunciar as palavras que desfizessem aquela penumbra. Mas elas vieram, pedaos do caos emocional que havia sido remontado no decorrer desse dia.
	Errado, me! Voc no pode me pagar... como fez com meu verdadeiro pai. E no vou desaparecer da sua frente.
Toda cor sumiu do rosto de Alicia.
	O que sabe disso?
Ah, o triunfo de estilhaar a si mesma! A escurido tomou conta dela e sua voz copiou instintivamente o tom macio e perigoso da voz de Richard.
	Isto  s entre ns duas, me. Nesta famlia mantemos os escndalos enterrados, no?
Alicia recuou e assumiu uma pose altiva.
	Est me ameaando, Lynn?
De sbito era fcil rir. A loucura das esperanas que tivera era mesmo engraada. Ali estava, vista como uma ameaa quando fora implorar afeto.
	De jeito nenhum  respondeu, divertida.  Vim para descobrir qual era minha posio entre vocs. Agora sei.
Alicia ficou desconcertada e Lynn sorriu ao levantar-se para ir embora.
	Adeus, me. Acho que nada mais tenho a ver com voc. Ou com suas outras filhas.
Dirigiu-se para a porta. Tinha as pernas fracas e precisava fazer fora para no tremer.
Onde voc vai, Lynn?
Apenas suspeita naquela pergunta. Nenhum indcio de preocupao com seu bem estar.
	Para o meu hotel  respondeu, contente com a indiferena que colocou na voz.
Era bom ver que conseguia lidar com a rejeio que encontrara.
	O que pretende fazer?
A resposta subiu aos lbios de Lynn. A resposta perfeita, que desfazia a escurido e brilhava com a luz pura da justia. Parou e voltou-se a meio, querendo punir a me que sempre colocara as ambies diante tudo. Alicia iria apreci-la pois, afinal, ambio era a coisa mais importante para ela.
	Pretendo me casar com Richard Seymour.
O choque causado por essa declarao foi muito satisfatrio.
	O qu?  grasnou Alicia, incrdula.
Lynn sorriu.
	Ele me escolheu, me. No Felicity, nem Vanessa, nem Caroline, nem Nadine... Eu. E vou me casar com ele o mais depressa possvel.
Depois dessa afirmativa triunfante ela saiu, fechando a porta da manso Durant.

CAPITULO VI

As horas entre a confrontao com a me e o encontro com Richard custaram a passar para Lynn. Mergulhada na amargura, de vez em quando a voz da razo a fazia subir  superfcie.
Voc no precisa disso! Organizou em Broome uma vida boa, normal. Pode ir para l, ir embora sem olhar para trs.
Mas acima desta voz ondas de rebeldia sucediam-se com um grito por justia.
Todos aqueles anos... a fracassada, a rejeitada, a desprezada, a que no valia nada. Por que no podia ser a vencedora ao menos uma vez? Sempre quisera que Richard fosse seu heri. Que o fosse agora, abertamente ao lado dela, lutando contra tudo e todos que tentassem esmag-la. Seu marido!
Chegou a nossa vez, ele dissera. A espcie de acordo que lhe oferecia tinha razes nas origens de ambos. Quem melhor do que ele podia compreender a solido, o senso de separao das pessoas que levavam vidas normais?
A verdade  que ela vivia uma fico de normalidade em Broome. As sombrias verdades permaneciam em seu ntimo, talvez ligando-a mais a Richard Seymour do que a qualquer outra pessoa. Mas no podia deix-lo saber isso porque ele o usaria para conseguir o que quisesse. Um caador usa tudo para alcanar o que quer e ela no tinha iluses sobre essa faceta de Richard Seymour.
Para ele vinha primeiro a ambio. Seria loucura fantasiar que tinha algum sentimento especial por ela. Mesmo Richard tendo sido o nico a se preocupar, fizera isso de uma certa distncia. Fora discretssimo quanto a ser seu amigo e Lynn no tinha dvidas que essa discrio destinava-se a evitar qualquer problema.
Ao mesmo tempo, fora a primeira escolha dele para casamento, o que indicava que sentia por ela algo mais do que por suas irms. Lynn confortou-se com este pensamento, se bem que soubesse que no devia esperar demais.
Nunca deveria se esquecer de que ao concordar em se casar com ele no se entregava de corpo e alma. Ningum iria ter absoluto controle sobre sua vida. No iria submeter-se a outro Lawrence Durant. Seria bom Richard entender isso. Havia termos que ele teria de respeitar se queria que tivessem um futuro juntos.
O que ela precisava era de um plano de ao, algo firme em que se apoiar, algo que demonstrasse a Richard que tinha intenes, que no era um simples peo num tabuleiro para que ele jogasse como bem queria. A necessidade de ser mais do que isso era impositiva.
De algum modo conseguiu organizar os errticos pensamentos o bastante para determinar que tipo de entendimento teria com ele nesse casamento. Tinha prioridades tambm, e controlar o imprio financeiro no era uma delas. No queria ser forada a ter uma gravidez atrs da outra at gerar um menino. Se Richard comeasse a abusar de seus direitos nesse sentido nada a faria continuar com ele. No o deixaria machuc-la com isso.
A despeito de seu firme raciocnio,-quando soaram as batidas dele na porta, s oito horas, Lynn sentiu-se em pnico. Precisou de toda sua fora de vontade para dominar-se e atender. Ficou olhando-o por instantes. Ali estava o homem com quem decidira se casar. Ele no estava de terno, mas a roupa que vestia era adequada para ir a qualquer lugar: camisa esporte azul-real, cala cinza e jaqueta de couro cinza. As roupas casuais no mudavam nada, ele ainda emitia a mesma fora carismtica de saber o que queria e da vontade para consegui-lo.
Ela sentiu a pele arder diante do olhar que a percorreu. No se vestira porque no tinha inteno de ir jantar com ele, nem de fazer amor. Tinha medo que maior intimidade enfraquecesse suas decises.
Seus cabelos ainda estavam presos no alto da cabea e o nglig de cetim rosa-salmo cobria uma camisola do mesmo tecido e da mesma cor. Estava pronta para ir para a cama, mas no com ele.
	No quero jantar, Richard, e no quero sexo  avisou sem rodeios, defensiva para esconder o pnico.  Temos algumas coisas a estabelecer  continuou admirada com a firmeza da prpria voz , por isso, entre.
Ele assentiu, sem qualquer comentrio, e entrou. Lynn fechou a porta e permaneceu no mesmo lugar, pronta para despedir-se assim que tivesse terminado. A despeito da resoluo, do plano armado em sua mente, a presena dele despertava vulnerabilidades que ela no queria sentir, nem analisar. Aquele encontro tinha que ser apenas sobre promessas.
	Por acaso reconsiderou a ideia de se casar comigo, Richard?
O olhar dele estava fixo na mala aberta em cima da cama, com o costume preto que ela usara cuidadosamente dobrado sobre as demais peas que nem se dera ao trabalho de pr no guarda-roupa. Reparou na jaqueta, jeans, camiseta e roupas de baixo que ela deixara sobre uma cadeira, prontas para serem usadas na manh seguinte. O quarto do hotel era bsico, o mximo que Lynn podia pagar. Richard absorveu toda a situao antes de se voltar para ela.
	Quero voc, Lynn, ningum mais.
Ele respondeu simplesmente, os olhos fitando-a com uma luz de desejo que fez o corpo dela reagir. O estmago de Lynn contraiu-se, o corao bateu mais forte e sua mente saiu de foco por momentos. O impacto daquele olhar a fez recuar at encostar na porta.
	No d um passo, Richard!
Apesar de ter decidido que se casaria com Richard, no queria submeter-se ao esquema dele, nem  sua vontade. Ele permaneceu onde estava.
	Como voc quiser...
A resposta era calma, porm sua expresso dizia que o desejo estava temporariamente dominado, mas encontrava-se vivo e palpitante.
	Vou me casar com voc  declarou ela , mas sob condies.
	Quais so elas?
	Voc vai cuidar de tudo.
Os olhos dele estreitaram-se um pouco.
	Por qu? No quer organizar o casamento?
Sem pai, nem me ou algum que se interessasse por ela como noiva? Como ele podia ter imaginado aquilo? Por momentos a mente de Lynn ficou em branco. A ideia do casamento como acontecimento no lhe ocorrera.
	Faa como achar melhor, eu no me importo  declarou.
No tinha ningum com quem partilhar as emoes de uma festa de casamento. Claro, tinha conhecidos e colegas em Broo-me, mas no chegavam a ser ntimos. No podia imaginar nenhum deles atravessando o continente numa cansativa viagem para ir ao casamento dela.
	Deixe-me fora de tudo at o dia do casamento, Richard 	pediu, decidida.
	Sua famlia no dever ser envolvida?  ele fitou-a, atento.
O queixo dela ergueu-se, orgulhoso.
	No tenho famlia.
Richard nada comentou, mas em seu olhar transpareceu a suposio do que devia ter acontecido naquela tarde, a dele no era uma atitude de pena, mas sim de reconhecimento do que a tinha afetado to profundamente.
Era constrangedor, doloroso, no entanto naquele ntimo partilhar do vazio e da escurido havia tambm um consolo que mais ningum poderia lhe dar. Ele sabia exatamente o que Lynn acabara de passar, as injustias que sofrera, a rejeio, a prestao de contas. Era uma afinidade que duvidava encontrar em qualquer outro homem. Se era uma afinidade "boa ou ruim, no sabia, mas o fato  que viera acabar com a solido em que vivera at ento.
	Voc tem alguma preferncia para o tipo de casamento?
	perguntou ele, calmo.
Ela deu um sorrisinho zombeteiro.
	Tem que ser dentro da lei.
Como o pedido de casamento dele se referia a pontos legais, Richard iria apreciar isto.
	Com certeza ser  assegurou ele.
Sorriu tambm, mas houve um claro perigoso em seus olhos e Lynn imaginou se teria tocado em algum ponto secreto. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, mas ignorou-o. Todos tinham uma personalidade secreta. Enquanto ambos se respeitassem seu casamento teria tanta chance de dar certo quanto qualquer outro.
	Estou com vo marcado de volta a Broome amanh, Richard. No vou ficar aqui. Tenho coisas a ajeitar se vou morar em Sdnei. Creio que posso mandar-lhe os documentos para a certido de casamento. Ele assentiu.
	E espero que esteja aqui no dia do casamento.
	No dia anterior  prometeu ela.
	Voc pretende viver comigo como esposa?
Os olhos dela o fitaram, implacveis.
	Sim, mas no pretendo ser uma mquina de produzir bebs  esclareceu.
Nunca, nem em mil anos repetiria o que a me dela havia feito, por nada e por ningum.
	Pelo menos vamos ter um filho, Lynn  estabeleceu ele.
Ela respirou fundo e lanou o desafio.
	Sim, mas se tivermos uma menina e voc reagir mal eu o deixo.
O brilho nos olhos dele tornou-se meigo.
	Seja menino ou menina, o filho que vier ser precioso para mim.
O modo de Richard falar lembrou a Lynn a circunstncia do nascimento dele... Fora tambm como um chupim, posto de lado por no pertencer ao ninho.
	Ter uma filha em vez de um filho prolongar o tempo que voc ficar no controle da empresa  lembrou-o ela.
	No pretendo antecipar de que maneira satisfarei os termos do testamento, Lynn. A empresa Durant ser minha, de um modo ou de outro.
Uma fora rude emanava dele e Lynn ficou impressionada ao ver que nada havia de suave naquele homem. Ele era duro e quando estava num caminho nada o desviava. Era muito perigoso.
Ser que Lawrence Durant percebera isso ou Richard o escondera do seu mentor? Lynn desconfiava que se tratava da segunda hiptese. A escolha de se casar com ela era a prova de que se rebelava ao testamento. Uma vitria sobre Lawrence, como ele dissera naquela tarde. Que outras vitrias Richard teria planejado?
	Ento, casar-se comigo  apenas um movimento do jogo em que voc est empenhado  considerou ela, observando-o com ateno.
Os olhos dele brilharam, divertidos.
	Mais do que um movimento, Lynn. E um degrau para o que deve ser alcanado. Gosto da ideia de me casar com voc.
	 um prazer pessoal ou de negociante?
O sorriso dele tornou-se sedutor.
	Em vrios nveis, muito pessoal.
Mesmo com a excitao se agitando e pulsando em seu ntimo, Lynn disse a si mesma que no devia ser to vulnervel quele sorriso. Sempre haveria uma parte de Richard que ele guardaria para si mesmo, a parte que Durant achava admirvel, e ela no queria mesmo conhec-la.
Desde que a deixasse ser a pessoa que era, poderiam coexistir, partilhar o que tinham partilhado naquela tarde. Ela precisava sentir afinidade com algum para ter a sensao de pertencer ao mundo e no ao nada, como antes.
Ainda sorrindo, os olhos de Richard a acariciaram com um calor que ameaava dissolver a fora de vontade dela.
	Sua paixo sempre me impressionou, Lynn.
	Paixo?
Ela tentou adequar a palavra  adolescente que fora.
	Voc irradia intensidade. Sempre irradiou. Talvez seja sua herana italiana.
Era uma ideia e Lynn imaginou o quanto teria de seu pai verdadeiro. Temperamento  parte, que ela supunha que poderia ser passado geneticamente, havia o lado criativo da sua natureza. Jardineiros podem ser criativos. Pensou em sua mi-cro-empresa de cermica, em Broome, que no era exatamente lucrativa, mas adorava trabalhar com argila. Era um prazer tctil e esttico pelas formas e cores.
	Mais alguma condio?
	Sim. Mais uma. Quero continuar trabalhando em cermica. Voc deve saber disso, j que me vigiou sempre.
Ele fez que sim.
	Quando for minha mulher, vamos escolher uma casa que sirva para nossas exigncias de vida. Podemos mandar fazer um forno. Tudo que voc quiser, Lynn. No fao objeo alguma que se dedique  sua arte durante o dia...
Ele comeou a aproximar-se.
	...mas as noites sero minhas  completou com suavidade.  Entenda isto, Lynn: as noites sero minhas.
CAPITULO VII
Ele a estava esperando.
O vo para Sdnei aterrissar dentro do horrio, exatamente s 12:15 horas, o que daria a ela a tarde inteira para fazer algumas compras necessrias. Lynn dirigiu-se para o terminal onde as bagagens chegavam pela esteira. Esperava que algum fosse busc-la no aeroporto, mas no que o prprio Richard o fizesse.
Ao v-lo sentiu como que uma exploso de energia. Seu corao falhou uma batida. Ele se encontrava  porta da sada, falando ao celular, mas os olhos fixos nela com tal concentrada fora que Lynn sentiu como se ele a estivesse exigindo, de corpo e alma.
Continuou andando de modo automtico enquanto ele guardava o celular num bolso do palet e ia ao seu encontro. Lynn no sabia que o fitava to intensamente quanto ele o fazia.
Era o incio do futuro deles juntos.
No dia do funeral pudera ter uma ideia do poder de liderana dele. Mas talvez ele se houvesse moderado ento, em deferncia ao luto pblico por Lawrence Durant. No havia possibilidade de engano sobre seu ar de comando agora. O homem com quem estava prestes a se casar dava a sensao de poder tomar tudo que quisesse, de ser invencvel e intocvel.
O que colocou as defesas de Lynn em alerta.
	Ol!  cumprimentou-o com um sorriso.
	Ol  respondeu ele, os olhos brilhando de admirao.
 Estou contente por voc ter chegado.
	E eu, encantada por voc ter deixado seus compromissos para vir me buscar.
Ele riu e seu rosto irradiou uma tal alegria que desfez toda a barreira de defesa de Lynn. Pegou-a pela mo e saram andando.
	Eu seria um omisso se no viesse receber o meu trunfo, Lynn.
Essa brincadeira, baseada nas finalidades profissionais, no alterou a satisfao de estar com ele. Tudo que Lynn podia pensar era que se tratava do comeo de uma vida onde no mais estaria sozinha.
	Quer dizer que ainda precisa de mim  brincou de volta.
	Preciso e quero  respondeu ele.
Enquanto falava Richard fitou-lhe a boca e o sangue dela aqueceu-se, obrigando-a a respirar fundo.
	Pensei que voc s iria querer-me  noite...
Lynn tentava esconder o quanto era vulnervel ao toque dele.
	Ah, isso no mnimo!  garantiu Richard.  No quero saber de limites.
Campainhas de alarme soaram na cabea de Lynn. Fitou-o, atenta.
	E se eu no quiser mais voc?
Ele sacudiu os ombros.
	 s me dizer.
	E voc ir respeitar isso?
	Completamente. Vejo nosso casamento como um acordo mtuo, Lynn.
Essa garantia dissipou o aperto no peito dela. Richard Seymour no era um tirano como Lawrence Durant e no havia motivo para no confiar em sua palavra. Ao ver que ele se dirigia para a porta e no para a esteira, alertou-o:
	Tenho duas malas para pegar, Richard.
	Meu secretrio as pegar e levar para o hotel. Reservei uma sute para voc no Regent. Vou lev-la para l agora.
Lynn no protestou, compreendendo que ficar no aeroporto  espera da liberao da bagagem seria uma grande perda de tempo para Richard. Ele fora busc-la e ela tomava essa cortesia como um cumprimento. Quando saram do aeroporto uma limusine aproximou-se. Richard abriu a porta de trs para ela, entrou em seguida e momentos depois estavam a caminho do centro da cidade, no espao luxuoso, protegidos por vidros fumes.
	Coordenao perfeita  ela no pde deixar de comentar.
Richard deu um rpido sorriso.
	Avisei o motorista pelo celular. 
	Claro. Eficincia mxima.
	Voc deixa alguma coisa ao acaso, Richard?  perguntou, curiosa.
	Sempre se pode ser surpreendido pelo acaso. Seu vo poderia ter sido cancelado, a limusine poderia no estar disponvel. No se pode controlar tudo, Lynn.
	S o que  humanamente possvel  brincou ela.
	At mesmo o fator humano  imprevisvel.  Ele pegou a mo esquerda dela e tocou o anel de noivado com o polegar.
 Fiquei em dvida... Talvez voc quisesse uma outra pedra em vez do tradicional diamante.
Lynn surpreendeu-se que ele houvesse considerado as preferncias dela. Imaginava que simplesmente escolhera o que achava apropriado.
	Voc podia ter me perguntado  murmurou, a voz mo dificada pelo n que tinha na garganta.
Os olhos azuis a fitaram diretamente, desafiadores.
	Voc foi determinante em dizer que eu decidisse tudo. E um pouco tarde para mudar de ideia, Lynn.
	No mudei. De fato, no me importo com um anel de noivado. Se voc gostou deste diamante, para mim est bem.
Enquanto falava, sentiu-se tocada pela tenso que havia nele.
	Ento, espero que tambm no se importe com as outras decises que tomei.
	Eu disse que as tomasse e quero assim.
	Obrigado pela confiana  ele sorriu, relaxando.
Batalha vencida, pensou Lynn. Mas que batalha? Ela respirou fundo e perguntou:
	Qual  o plano para amanh?
	A diretora de casamento, Anne Lester, ir nos encontrar no hotel. Ela se encarregar de tudo.
Lynn engasgou.
	Uma diretora de casamento?
	Como no entendo disso, contratei uma perita.
	Voc est querendo dizer  a voz dela falhou  que teremos um verdadeiro casamento?
Richard assentiu, os olhos brilhando de entusiasmo.
	Duzentos convidados.
Santo Deus! Ele pretendia exibir o casamento deles diante de todas as pessoas que considerava importantes. No se tratava de um acordo particular, tinha que haver um pblico para a unio Seymour/Durant, provavelmente com publicidade. Mas por qu? Era desnecessrio.
	Por qu?
A pergunta escapou antes que ela pudesse pensar.
	Porque eu quero assim.
Lynn engoliu seco. No havia argumento contra isso. Ela lhe dera carta branca e ele a usara.
- Preciso comprar um vestido de noiva  disse fracamente, tentando escapar dos tentculos do pnico.
	J escolhi um.
	Voc?
O pensamento de Richard percorrendo butiques de noivas passou-lhe pela cabea.
	Eu disse a Anne Lester o estilo de vestido que queria e ela me apresentou vrios  explicou ele.  Escolhi um.
	E se no servir?
	Creio que se poder dar um jeito nisso. H tempo para alteraes. O casamento est marcado para s quatro horas da tarde, amanh.
	Numa igreja...
Lynn estava aturdida, pois imaginara que iriam casar-se apenas num cartrio.
	A Catedral de St. Andrew.
	A recepo?
	No salo de festas do Regent.
Tudo da mais alta classe! Richard estava determinado a dar o espetculo completo. Seria possivelmente o casamento do ano tendo como noivo o mais cobiado solteiro da Austrlia e a noiva de sua escolha. Em todos os sentidos, pensou ela, at mesmo no vestido.
	Voc no convidou minhas irms para damas de honra?!  atacou, saindo da passiva aceitao daquele "socialmente correto".
	No. Voc caminhar sozinha pela igreja at encontrar-me no altar.
Lynn suspirou de alvio.
	Mas elas aceitaram o convite para o casamento  prosseguiu ele  e estaro entre os convidados. Sua me tambm.
Lynn considerou a hipocrisia de sua famlia indo a um casamento que no queriam que fosse celebrado. Na verdade, ela no as queria l. A vingativa satisfao que sentiria com elas testemunhando seu casamento com Richard se desvanecera nas semanas anteriores, seus pensamentos mais no futuro com ele do que em atingir a me e as irms.
Surpreendida, compreendeu que elas no significavam mais nada. Assim, pouco lhe importaria se estivessem ou no presentes. Havia uma certa ironia no fato de elas terem sido apanhadas na armadilha de seus prprios valores tendo que comparecer a um casamento de tal magnitude social.
Ao mesmo tempo, elas deviam estar detestando ter que olh-la como estrela enquanto eram relegadas a assistentes. As meio-irms desejando estar no lugar dela, a me da noiva como mera convidada e afastada de seus deveres naturais, uma vez que negara a Lynn seu natural amor de me.
Era a justia, uma justia da espcie "olho por olho", no entanto Lynn no podia evitar que ?.s quatro comparecessem  cerimnia que Richard planejara. Olhou-o, pensativa. Ser que ele pensara que aquela encenao daria a ela a compensao pelas injustias sofridas?
	Por que as convidou?  indagou, desejando ler a mente dele.
	Por muitos motivos...
Que bobagem pensar que alguma coisa podia ser simples com Richard!
	...inclusive eu querer que elas a vejam como eu a vejo.
	E como voc me v, Richard?
Houve um brilho de triunfo nos olhos dele.
	Como minha noiva, minha consorte, minha rainha... e deve-se render homenagens a voc.
Havia um grande orgulho na voz dele e Lynn no teve certeza a que se devia; se  necessidade de que ela brilhasse ou  necessidade de ter seu poder reconhecido e aceito tambm atravs da esposa que escolhera. Ele ergueu a mo onde brilhava o solitrio e beijou o n dos dedos, os olhos fixos nela com um desejo to intenso que Lynn ficou perturbada.
	Posso perguntar-lhe como me v?  brincou ele.
	Um caador respondeu, sem prembulo nem explicao. 
Richard inclinou a cabea e Lynn imaginou um milho de pensamentos passando por ela. A expresso dele nada revelava e em seus olhos transparecia sria avaliao. 
	Voc no est se sentindo apanhada numa armadilha, est, Lynn?
	No. Eu podia ter recusado, se quisesse. No h modo pelo qual voc possa me prender, Richard.
	Ento, por que caador?
	Eu no sou a meta  respondeu ela, simplesmente.  No sei qual  a sua meta, mas voc a est caando h muito, muito tempo.
	As demais pessoas costumam dizer que sou apenas ambicioso  notou ele, com brandura.
Havia algo mais por trs da ambio dele, pensou Lynn. Vira isso em seus olhos vrias vezes, mas no podia dizer o que era exatamente. Tratava-se apenas da impresso de uma sombria e flamejante paixo que no conhecia limites para alcanar sua satisfao.
Ela sacudiu os ombros.
	Voc me perguntou como eu o via.
	Perguntei e sua resposta foi... inesperada.  Fitou-a com maior interesse.  Pergunto-me quantas surpresas mais voc me reserva, Lynn.
	Talvez o bastante para voc parar de considerar seu casamento como garantido.
Ele riu e beijou-lhe a mo de novo, mais de leve desta vez, com ar de flerte.
	Uma esposa a ser considerada. Perspectiva fascinante.
A limusine saiu do fluxo mais intenso de trfego fazendo-os compreender que estavam na alameda de entrada do hotel. Lynn sentiu-se contente por ter vestido sua cala comprida preta mais elegante e uma tnica combinando. O leno pintado a mo que tinha no pescoo acrescentava um ar de distino. Entrar nesse hotel como noiva de Richard Seymour de repente pareceu-lhe assustador, principalmente com uma diretora de casamento pronta a coloc-la a par de tudo que fora planejado.
A limusine parou. O porteiro abriu a porta, Richard saiu e ajudou-a a sair tambm, cumprimentou-os pelos nomes e os fez entrar no saguo, indicando onde a srta. Lester estava sentada, esperando.
Uma esbelta loira em elegante costume vermelho emergiu de uma das enormes poltronas agrupadas no centro do saguo.
Aproximou-se, sorrindo, determinada a agradar Richard Sey-mour, fosse o que fosse que pensasse da mulher com quem ele escolhera casar-se.
Richard apresentou-as.
	Lynn, esta  Arme Lester. Anne, minha noiva, Lynn Durant.
	Estou feliz pela senhorita estar finalmente aqui!  Anne estendeu-lhe a mo.  Espero que ache certo tudo que fiz.
Lynn apertou-lhe a mo.
	Tenho certeza que fez um timo trabalho. Agradeo-lhe por estar cuidando de tudo.
	Foi uma tarefa muito diferente, sem nenhuma orientao da noiva  comentou Anne, nos olhos uma luz de curiosidade.
	Tenho certeza de que a orientao do noivo foi suficiente  replicou Lynn, sorrindo para Richard.
Ele passou um brao por seus ombros e apertou contra si enquanto sorria de volta.
	Vou deix-la nas mos de Anne. Ligo para voc hoje  noite, est bem?
Novamente o olhar dele fixou-se em seus lbios e Lynn soube que ele estava tentado a beij-la. Mas no o fez.
	Amanh  murmurou e retirou-se.
Ela ficou olhando-o percorrer o saguo com seus passos largos at o porteiro que lhe abriu a porta. Richard chamava ateno com a mesma facilidade que respirava. Perguntou-se que tipo de infncia ele tivera e o que haveria em seu corao no dia seguinte ao ver a mulher que decidira tomar como esposa caminhar pela nave da igreja, ao seu encontro.
	No h dvida de que conseguiu um verdadeiro homem, srta. Durant  admirou Anne Lester.
Lynn voltou-se para a diretora de casamento e um irnico sorriso entreabriu-lhe os lbios.
	Eu no "consegui". Foi tudo ideia dele, eu s disse sim.
	Mas certamente gosta dele.  Anne falou num impulso e logo se corrigiu.  Desculpe-me. Eu no quis ser indiscreta.
Sem poder deixar de rir, Lynn pensou que aquela era uma situao absurda... o prncipe encantado e o patinho feio. No entanto, era evidente que no se sentia intimidada por Anne Lester nem por ningum do hotel. O rtulo de noiva de Richard Seymour impunha respeito.
 Bem, vamos iniciar o processo de me tornar um cisne para ele  disse, sentindo-se um pouco area.  Vamos para a sute que ele reservou para mim?
Os dados tinham sido jogados e Richard esperava ter orgulho de sua noiva.
	Sim. Eu... Hum... Os elevadores ficam para este lado. Estou com a chave.
Anne Lester estava confusa, preocupada por ter dado um passo em falso no que era evidentemente uma situao estranha.
	No se preocupe  disse Lynn quando comearam a andar.  Conheo muitas mulheres que considerariam Richard um prmio. E gosto dele, sim  deu um olhar divertido a Anne , principalmente porque ele gosta de mim.
	Ah!  exclamou a diretora como se um lmpada houvesse se acendido em sua cabea.  Bem, eu nunca tinha visto um noivo cuidar de tudo para a noiva. Espero que aprove, srta. Durant. 
	O importante  que Richard aprove  disse Lynn seca.   ele quem paga a conta.
	Sim. Sim, claro  atrapalhou-se a mulher.
O custo desse casamento talvez no significasse nada para Richard, pensou Lynn. Imaginou se a publicidade que suscitaria ajudaria negcios de qualquer espcie. Ou seria apenas algo pessoal?
Orgulho... vingana... satisfao. De uma coisa tinha certeza: no era uma celebrao de amor.
E seu- corao ficou triste.
Nada de amor para Lynn.
Mas, afinal, Richard precisava dela e a queria, disse a si mesma, orgulhosa. E isso era mais do que tivera em famlia. No ia deixar que "elas" estragassem seu casamento no dia seguinte. Faria de conta que no estavam l. Na verdade, no estariam l por causa dela. Apenas Richard estaria l por causa dela.
Apenas Richard.
CAPITULO VIII

Sua rainha...
Lynn olhou seu reflexo no espelho de corpo inteiro mal acreditando que a noiva que via era ela. Ser que Richard a imaginara assim quando escolhera aquele vestido? Lembrava-se que os vestidos de casamento de suas irms, maravilhas vaporosas de corpete de renda e saias amplas, as haviam tornado como princesas de contos de fadas. Mas este vestido... era absolutamente majestoso.
Seu estilo era medieval com corpete de pesado tecido adamascado que moldava suas curvas com nfase incrivelmente sexy. O decote canoa era arrematado por uma tira debruada em ouro que na frente se transformava em duas e elas desciam juntas at abaixo do umbigo onde se separavam, em forma de corao, e davam a volta nos quadris. As mangas longas eram justas do punho ao cotovelo e se tornavam bufantes, bordadas em ouro. A saia de crepe canelado delineava seu corpo at o meio das coxas antes de cair em pregas graciosas que facilitavam o andar e atrs formava uma cauda mdia debruada em ouro.
Ao redor do pescoo ela trazia uma simples corrente de ouro com um pendente cujo brilhante rivalizava em tamanho com o do anel. Brincos de diamantes e uma tiara de ouro segurava o vu que completava a figura de noiva e emoldurava-lhe os cabelos descendo pelos ombros at a altura em que o corpete terminava. A parte de cima e da frente dos cabelos tinha sido penteada com um coque grande que sustentava a tiara, o restante descia pelos ombros e costas.
Seu rosto resplandecia como jamais resplandecera, um tributo  maquiadora que trabalhara nele realando os olhos, pondo um pouco de cor nas faces e pintando-lhe a boca num tom cereja brilhante.
	No se deve usar cores pastis em quem tem cabelos negros e pele morena  dissera.  Precisamos de um efeito dramtico.
Drama... Sim, aquele casamento era um drama, pensou Lynn. O rei recebendo sua rainha. Quando estivesse em cena, esperava poder representar bem o papel que Richard reservara para ela. Era uma perspectiva assustadora, agora que se achava vestida para a cerimnia. No costumava ser estrela.
	Seu buque.
Anne entregou-lhe um glorioso arranjo de rosas creme com centros dourados.
	Richard escolheu as flores, tambm?  perguntou erguendo o buque para sentir-lhe o perfume.
	Sim. Sugeri orqudeas, mas ele insistiu nas rosas.
O primeiro beijo deles havia sido no jardim das rosas... Ser que Richard se lembrara disso? Ser que as rosas significavam algo, alm de ser simples flores? Era loucura dela procurar um significado em todas as coisas.
	Sou obrigada a reconhecer que combinam com o vestido  apreciou Anne.
	Sim  concordou Lynn.
E disse a si mesma que era esse o nico significado das rosas, que costumavam ser tambm uma homenagem. O telefone tocou. Anne atendeu, ouviu e disse:
	Sim.  Desligou. Sorriu para Lynn.  O carro chegou e est na hora de irmos. Est pronta?
Lynn respirou fundo e olhou distraidamente ao redor. Tudo se acalmara. A sute havia sido como uma estao de trens o tempo todo; gente entrando, saindo, entregando coisas, fazendo suas unhas, os cabelos, pintando seu rosto. Muitos haviam comentado a magnfica vista da baa de Sdnei que se tinha da enorme janela de vidro. Ela no aproveitara nada disso, mas nessa noite... Nessa noite voltaria para aquela sute como esposa de Richard e talvez pudesse olhar as luzes l fora e esperar por um verdadeiro romance.
Ela estava pronta?
Seu corao apertou-se.
Olhou de novo o reflexo no espelho. Melhor ser uma rainha com um rei do que um patinho feio solitrio. E dera sua palavra.
	Sim, estou pronta  disse com firmeza, ignorando a contrao do estmago.
	Est absolutamente deslumbrante, Lynn  assegurou-lhe Anne, calorosa.  Creio que nunca vi um cisne mais lindo.
Ela riu, amarga.
	 para ver o que peritos podem fazer. Obrigada por todo seu trabalho e ateno, Anne.
	Foi um prazer  sorriu ela , voc  uma noiva modelo. Nada de fria, de discusses... nem mesmo de um ataque de nervos!
	Provavelmente vou comear a tremer na igreja. Alis,  melhor irmos antes que eu comece a tremer aqui.
O carro era uma limusine, mas desta vez branca e enfeitada com fitas de cetim brancas e douradas. No haviam esquecido um s detalhe, pensou Lynn enquanto Anne a ajudava a acomodar-se no banco de trs. Era bom ter algum com ela, tomando conta de tudo, com experincia e conhecimento, mesmo que fosse uma diretora de casamento paga. Pelo menos no se sentia sozinha em seu ltimo passeio de carro como a repelida filha de Lawrence Durant.
O motorista fez com que chegassem  igreja justamente s quatro horas. Anne insistiu que Lynn esperasse no carro enquanto ainda houvesse convidados chegando ou conversando l fora. Pelo jeito havia encarregados de cuidar dessa parte porque pouco depois a entrada da igreja estava vazia.
O processo de sair do carro foi orquestrado por Anne para que nada se desarranjasse. O pequeno trajeto at a porta da catedral foi lento, se bem que o corao de Lynn estivesse disparado. Uma vez dentro, Anne posicionou-a diante do corredor central da nave, ajeitou o vestido e desceu o vu sobre seu rosto.
Um rgo tocava um hino e um coro de vozes suaves cantava, porm Lynn no registrava nada. Parecia que um tambor batia dentro de seu peito e suas mos tremiam incontrolavelmente. Esperou que as pernas no falhassem no momento crtico.
O hino terminou. Anne se ps  frente dela, ajeitando o vu, depois assentiu em aprovao; fez sinal para algum e deu um ltimo sorriso.
	Perfeito. Quando soarem as primeiras notas da Marcha Nupcial comece a entrar na igreja. Ande devagar, um passo e uma pausa, no ritmo e no centro da passagem. Olhe apenas para Richard. No olhe para ningum que possa perturb-la. Entendeu?
	Sim  sussurrou Lynn, a boca e a garganta subitamente secas.
Gostaria de estar de brao com seu pai. Era terrvel no ter ao seu lado algum que a apoiasse e guiasse, impedindo-a de cometer erros diante de toda aquela gente. Mas seu pai morava em algum lugar d Itlia, ela caminhara sozinha a vida inteira e podia faz-lo mais uma vez, no?
Olhe para Richard, repetia-se esperando que tivesse o efeito de um mantra calmante. Precisava desesperadamente de uma viso em tnel porque podia ver os bancos da nave da igreja repletos de pessoas que sem dvida voltariam a cabea para v-la e avaliar a noiva, a filha de Durant que fora embora de casa seis anos atrs. Com certeza seria alvo de curiosidade e inveja, mas no devia pensar nisso.
Olhe para Richard...
O comeo da Marcha Nupcial pareceu explodir dos tubos do rgo. Anne saiu de lado marcando o compasso com as mos.
	V!  instruiu.
E Lynn deu um passo  frente. Siga o ritmo, ordenou a si mesma. No centro da passagem. Richard no fim da longa e terrvel passagem. Movimentos dos dois lados dela. Rostos desfocados. No devia olhar para eles, apenas para Richard. Passo, pausa... passo, pausa...
Ento, ele sorriu e de algum modo aquele sorriso tornou tudo mais fcil. Era como um farol guiando-a para o porto seguro. Richard cuidaria dela. Tudo que tinha de fazer era chegar junto dele. Lynn sorriu de volta, a cabea erguida, os ombros retos, determinada, mantendo a postura real, querendo que ele se orgulhasse de sua noiva.
Ele me escolheu, o que sou, como sou, pensou. No a patinho feio, no a rejeitada... A escolhida.
As pessoas na congregao pareciam flutuar. S quando se aproximava do fim da passagem central foi que notou duas mulheres de cada lado, nos primeiros bancos. A esquerda sua me, vestida em azul-lavanda.  direita... seria a me de Richard em verde-plido? Sentiu que as duas mulheres a fitavam emanando fortes emoes, pedindo uma ateno que quebraria sua compostura, fazendo seu corao bater mais rpido.
Agora no, disse severamente a si mesma. Aquele era o seu momento, seu e de Richard. Que as mes dos filhos bastardos que se casavam nesse dia testemunhassem isso. No ia deixar que elas a abalassem... Mes que haviam deixado que as consequncia de seus prprios pecados recassem sobre seus filhos.
Ento, Richard estava segurando sua mo e a conduzindo ao altar. Ela segurava o buque com tanta fora que foram precisos alguns momentos para soltar uma das mos. Apoiar sua mo na dele a fez voltar  realidade.
Richard falara com ela por telefone na noite anterior, querendo saber se no havia problemas, e no tinham estado juntos desde que ele a deixara com Anne Lester. Naquele meio tempo o casamento atingira um nvel de fantasia, mas o toque da mo dele trouxe Lynn de volta ao mundo real.
Era isso.
Ele estava tomando sua mo em casamento.
Deste dia at a ter...
De sbito no conseguiu fit-lo. Seu corao transbordava de amor e ela sabia que no devia ser assim. Aquele era um espetculo apenas. Todos os personagens estavam em seus lugares e a pea se desenrolaria at a inevitvel concluso. Seria um triunfo para Richard. Deveria, ser para ela, tambm.
O ministro, um homem alto, de cabelos grisalhos, paramentado, aproximou-se para dirigir a cerimnia. Houve um rumor surdo quando a congregao sentou-se. Ao redor do altar havia magnficos arranjos de rosas creme e candelabros de prata macia. Os vitrais punham um colorido de sonho na cena.
	Estamos aqui reunidos hoje...
Lynn fez o possvel para se concentrar nas palavras, contendo o pnico. Mas no pde impedir sua voz de tremer quando repetiu as frases dos votos de casamento. Richard disse as dele em tom pausado, como se saboreasse cada palavra.
	...amar, honrar e cuidar...
Ela fechou os olhos e desejou que fosse verdade. Amar no fazia parte do acordo deles, mas o amor poderia nascer se fosse encorajado. Honravam um ao outro desde j, por isso no era problema. Mas cuidar... Lynn queria ser cuidada. Se Richard pudesse ver cada filho que tivessem como "precioso" seus sentimentos extravasariam para ela?
Ouviu o ministro perguntar se algum sabia de algum motivo que os impedisse de se casar e o corao dela subiu  garganta. Ser que alguma de suas irms iria levantar-se e denunciar que ela no era filha de Lawrence Durant?
Ningum falou.
Ela voltou a respirar normalmente, censurando-se pela preocupao absurda. Claro, Richard no se arriscaria ao menor risco naquele momento brilhante. De um modo ou de outro anteciparia todas as contingncias. Nada deteria o caador.
Ele colocou a aliana no dedo dela, mas ela no tinha aliana para ele. Irrelevante, de qualquer modo. Caadores no usam jias.
	Eu os declaro marido e mulher.
O rgo voltou a soar enchendo a catedral com o som rico. O ministro sorriu para eles.
	Pode beijar a noiva.
O coro comeou a cantar a Cano da Alegria.
Richard ergueu o vu que lhe cobria o rosto e passou um brao pela cintura dela, com uma arrogncia prpria do seu triunfo. Mulher dele: o passo maior para chegar aos termos que o testamento de Lawrence exigia, especialmente doce desde que Lynn havia sido a escolha dele e no a do poderoso Durant.
Ela ficou nervosa. O passo estava dado, para o melhor e para o pior. No tinha ideia de at onde chegaria e o fatalismo que a levara at aquele ponto a assustava.
	Olhe para mim, Lynn  murmurou Richard.
Ela precisava... tinha que ver...
Encarar a verdade era melhor do que tem-la.
Acabava de se entregar nas mos daquele homem e iria saber se seu instinto estava certo ou errado.
Com um temor quase paralisante ergueu os olhos esperando ver nos dele um brilho de vitoriosa posse. No entanto, no. No olhar de Richard havia uma suave, acariciante ternura, como se ela fosse um animalzinho sem dono que houvesse tomado sob seus cuidados. E o corao de Lynn emocionou-se profundamente com a certeza que ele tomaria conta dela de todos os modos que pudesse.
Richard inclinou a cabea e seus lbios pousaram de leve nos dela, fazendo-os tremer, tal a sensao de ternura que lhes passaram.
Para Lynn era o paraso, no dia de seu casamento.

CAPITULO IX

A sesso de fotografias foi intensa, misturada uma entrevista com um pequeno grupo da imprensa. No momento em que Lynn e Richard chegaram ao hotel, ao fotgrafo oficial contratado por Anne Lester juntou-se um grupo de outros, de jornais e revistas, acompanhados por colunistas sociais e reprteres que faziam perguntas entre um flash e outro.
Lynn sentia-se deslumbrada e profundamente gratificada pelas respostas que Richard dava negando que o casamento tivesse algo a ver com negcios, insinuando que havia laos romnticos entre eles.
"Lynn escolheu levar vida prpria longe dos interesses dos Durant, mas nunca perdi contato com ela."
"Lynn sempre foi a mulher com quem eu queria me casar. Era s uma questo de tempo, at que ela estivesse pronta."
"Conheci Lynn quando ela estava com quinze anos. Nesse tempo j era especial.  mais especial ainda agora."
Ele disse isso tudo de um modo encantador, convincente, sorrindo para ela como se fosse absoluta verdade. At Lynn quase acreditou. Ficou to tocada pelo encantamento que ele projetava que suas respostas foram influenciadas pelas dele.
"Nunca houve ningum para mim. Apenas Richard."
"Sa de casa porque tinha necessidade de me encontrar como pessoa. Richard  forte e soube respeitar minha escolha."
"Este  o dia mais feliz da minha vida."
Richard encerrou a entrevista declarando:
 Lynn e eu pertencemos um ao outro.  simplesmente isto.
Um casamento por amor.
Lynn estava to estimulada com sua histria pblica que no se sentia mais nervosa, ao lado de Richard  entrada do salo de festas, cumprimentando os convidados e recebendo seus augrios. Richard apresentava cada pessoa a ela e se fosse algum importante nos negcios mencionava o fato. S as pessoas do mundo dos negcios realmente o interessavam, pensou ela.
Suas famlias foram as ltimas. Se assim fora arranjado por Richard ou Anne Lester, Lynn no sabia. Sua descontrao mudou um pouco quando ele apresentou sua me, que no estava com o marido. Era a senhora vestida de verde-claro, muito parecida com o filho, s que seus olhos eram castanhos e no azuis.
	Maravilhosamente executado, como sempre, Richard  comentou ela, com certa ironia.
	Obrigado  respondeu ele, seco.  Minha esposa, Lynn. Minha me, Clare Seymour.
Nada das palavras carinhosas de costume entre eles.
	Tenho prazer em conhec-la, sra. Seymour  sorriu Lynn.
Estava sendo submetida a um olhar avaliador que a questionava, mais do que congratulava, como noiva de Richard. Lynn podia quase ouvir as palavras no ditas... Voc sabe com quem est se metendo? E foi tentada a responder Sim, eu sei, porque venho do mesmo lugar que ele, mas segurou a lngua, sabendo intuitivamente que havia feridas jamais' curadas entre me e filho.
	Richard permaneceu sozinho por muito tempo  foi o comentrio triste de Clare.  Admiro sua coragem em casar-se com ele.
	Oh, Richard sempre foi bondoso comigo  respondeu Lynn, confiante.  Assim  fcil ser corajosa.
	Bondoso?.
A me de Richard olhou-o como se aquela fosse uma palavra que jamais se ajustaria ao seu filho. Ento, forou um sorriso para Lynn e murmurou:
	Boa sorte, minha querida!  e afastou-se.
Houve um ligeiro mal-estar quando ficou claro que a me de Richard no acreditava no casamento por amor. Mas ser que ela no conhecia Richard, do mesmo modo que a me dela no a conhecia? Ser que alguma vez Clare se importara com o corao do chupim no ninho do tico-tico? 
Lynn afastou as preocupaes pois Richard j a apresentava aos seus dois irmos mais velhos e as esposas. Ento, ele havia sido o mais novo da famlia, tambm, pensou enquanto recebia os cumprimentos que lhe pareceram algo constrangidos. Inveja de irmos?, perguntou-se. Eles eram mais baixos do que Richard, atarracados e com olhos negros. Como os do pai, fosse ele quem fosse. Vinham acompanhados por duas adolescentes, sobrinhas de Richard, que se mostraram entusiasmadas com o casamento e agradeceram ao tio por t-las convidado.
Foi um momento bom, logo eclipsado pela aproximao das irms de Lynn. Caroline  frente. Nadine aproveitou para dar um sonoro beijo de cunhada em Richard enquanto Lynn enfrentava a irm de lngua afiada.
	Estou contente por voc ter vindo, Caroline  disse, polida.
	Tnhamos quer vir, no?  foi a resposta zombeteira.
	No. Dependia inteiramente de vocs.
Recebeu um olhar de piedade.
	Acorde, Lynn. O mestre ordena, a gente salta ou paga.
Estaria Caroline sendo malvada ou apenas estabelecia a verdade da situao? No havia tempo para saber, Nadine tomava seu lugar.
	Bem, voc agiu de modo a nos deixar orgulhosas, hoje.  A inveja brilhava em seus olhos.  Que toque de classe, irmzinha!
	Obrigada, Nadine.
	Deslumbrante!  pontificou Vanessa.  Realmente deslumbrante!
	Como um cisne?  Lynn no pde deixar de sugerir.
Mas a ironia flutuou alm da mente de Vanessa.
Pelicity, friamente elegante como sempre, inclinou-se para expressar sua dvida.
	Espero que consiga manter esse padro, Lynn. Richard espera por isso.
	No vou decepcion-lo  garantiu Lynn, seca.
Afinal, a confrontao com sua me. Apesar de no estar esperando nada, Lynn sentiu no corao adejar a esperana quando Alicia Durant contemplou a filha mais jovem com um olhar de pesarosa admirao.
	A ltima surpresa  murmurou.  Voc pode no acreditar, Lynn, mas eu a acho doce.  Num rpido gesto, acariciou a face da filha de leve.  Voc no nasceu -toa, afinal.
Lynn ficou chocada demais para responder. Havia nascido para ser o filho de Lawrence. Agora era a esposa do filho substituto de Lawrence. O fracasso estava, ento, sendo visto como sucesso?
A mo de Alicia caiu, sua boca esboou um sorriso.
	Minha filha. Eu queria que Lawrence estivesse aqui para ver. Voc  um triunfo, Lynn. Espero que se saia bem...  Havia uma nota de tristeza em sua voz quando acrescentou:
 Muito melhor do que eu.
Aprovao? Depois de todos aqueles anos? Uma aprovao ligada ao seu casamento com Richard. Ser que era s isso que lhe dava importncia aos olhos de sua me? Ou havia algum sentimento diferente por trs daquela sugesto de tristeza?
Alicia afastou-se antes que a filha sasse da confuso, antes que dissesse uma palavra.
	Voc est bem, Lynn?
Ela voltou-se para Richard.
	Estou! Interessante a comparao entre a sua famlia e a minha.
Ele a observou, atento.
	Algum problema?
	Voc os forou a vir, Richard?
Ele fez que no.
	Pressionou-os?
Richard riu, irnico.
	Mil cavalos selvagens no os teriam mantido longe daqui.
No houve qualquer presso, acredite.
Lynn acreditou nele, apesar do comentrio de Caroline ainda estar em sua cabea.
A orquestra comeou a tocar e um cantor interpretou a rendio emocional com a cano Finalmente Encontrei Algum, enquanto Richard passava com Lynn entre as mesas dos convidados at a pista de dana no centro. Enlaou-lhe a cintura e danaram, sozinhos, com todos assistindo.
	Voc escolheu esta msica?  perguntou ela.
Ele sorriu.
	Claro. Eu escolhi tudo. Voc, em primeiro lugar, Lynn.
O corao de Lynn agitou-se. Ele estava lhe dando todo romance que ela poderia desejar e se no sentisse aquilo tudo em seu corao estava representando muito bem. Ou seria uma questo de orgulho para ele? No saberia dizer e no importava. Adorava sentir-se rainha dele.
A recepo foi soberbamente bem dirigida. Os noivos sentaram-se  mesa das pessoas que Richard mais considerava, ao lado da estrutura de poder que ele construra no imprio financeiro de Lawrence. Os senhores sentiam-se confortveis junto dele e suas esposas eram amveis para com Lynn, colocando-a  vontade. No a conheciam, mas essa era por certo a atitude diplomtica a manter com a esposa do chefe e ela sentia-se grata por ali no haver tenso. A msica tocada pela orquestra tornou-se ambiental e o jantar servido foi excelente. Champanhe francs era servido  vontade e as conversas se tomaram mais soltas, divertidas. Lynn esqueceu-se da frase maldosa de Caroline sobre Richard at que cruzou com ela a caminho da toalete.
	Caroline, espere um momento!  exclamou, impulsiva, e pegou a irm pelo brao.
	A noiva manda  foi a resposta sarcstica.
	No seja assim  pediu Lynn.  S quero saber o que Voc quis dizer insinuando que Richard as forou a vir aqui.
Caroline revirou os olhos.
	Ora, Lynn, voc sabe como essas coisas funcionam!
	No. Por favor, diga-me.
	Ele  o nico executor do testamento e pode adiar sua execuo pelo tempo que quiser. Enquanto isso, temos que  danar conforme sua msica.  Impaciente, acrescentou:  A sua msica tambm, eu creio.
	No!  A negao de Lynn foi veemente.  Eu jamais vou entrar no jogo de Lawrence. 
	Melhor para voc!  Caroline tornou-se petulante.  Isso no muda nada, no ? Richard tem o poder e os cordes da bolsa.
	Ele disse que vai suspender a homologao do testamento?
Caroline sacudiu os ombros.
	Ele  um homem do papai.  igual a ele.
	No, Caroline  declarou Lynn, convicta , Richard  homem s de si mesmo.
Se no fosse, no teria se casado com ela.
	Farinha do mesmo saco!  escarneceu a irm.
Seria verdade? Lynn queria negar isso. Richard lhe afirmara que no obrigara ningum a ir ao casamento. Caroline presumia que ele iria agir do mesmo modo que o pai dela, mas podia no ter razo.
	No entendo de homologao, mas vou falar com Richard sobre a herana de vocs  disse, resoluta. Talvez ele possa arranjar um adiantamento dela.
	A que preo?
No mesmo instante Lynn percebeu que a influncia de Lawrence deixara marcas em todos, no apenas nela. Ele dirigira o pensamento da famlia toda. Gentilmente, apertou o brao da irm.
	No vai haver preo, Caroline, eu juro. Acabou-se a vida que vivamos. Voc pode fazer suas escolhas sem medo. Comece por levar a vida que quer. Ningum ir impedi-la, nem Richard, nem eu, nem ningum. Voc  livre, agora.
Havia confuso no olhar de Caroline.
	No entendo... Por que se casou com Richard?
	Porque o amo.
	Ama?
Caroline fitou-a como se no entendesse aquele conceito e a prpria Lynn estava surpreendida por ter dito aquilo. Ser que a fantasia do casamento se tornara real para ela?
	Eu queria que fssemos verdadeiras irms, Caroline  declarou com intensidade. - No que ficssemos umas contra as outras. Podemos tentar?
O olhar da irm tornou-se frio.
	Voc  louca, Lynn. Richard  um lobo.  evidente que escolheu voc porque algo o impulsionou nessa direo.
	No  verdade!
Os olhos azul-claros encheram-se de escrnio.
	Que estupidez cega! Melhor aprender a jogar o jogo ou sair perdedora de novo!  Deu uma risada.  Amor! Meu Deus, que piada!
Foi para o salo, rindo ironicamente. Lynn ficou olhando, de repente assustada com o que as atenes de Richard lhe reservavam. Poderia confiar nele?
Tinha se casado com ele.
Era seu marido, mas no seu guardio.
Ela ainda tinha escolhas. Sempre tivera escolhas. Era s uma questo de ter vontade de exerc-las. Naquela noite era a noiva recm desposada de Richard porque assim escolhera e ia fazer o possvel para tornar o casamento deles bom para ambos. Era errado deixar que a viso cnica de Caroline a influenciasse. Richard merecia sua confiana, no?
At onde der para confiar, respondeu uma vozinha temerosa em sua mente.
D a ele o benefcio da dvida, aconselhou seu corao. E continue a d-lo at saber alguma outra verdade com absoluta certeza.
E foi com esse pensamento que ela voltou ao salo, que voltou para a sute do hotel e que manteve quando ficaram a ss... na noite de seu casamento.

CAPITULO X

Apesar da deciso, Lynn sentia-se nervosa quando precedeu Richard na sute. Estavam longe dos holofotes, agora, e ela no sabia que verdade emer-geria em particular. At que ponto o casamento deles havia sido real para o homem com quem se casara e o que havia sido representao para os assistentes?
Apenas dois abajures estavam acesos deixando a sala em romntica penumbra. Viu na mesa um balde de prata com uma garrafa de champanhe, ao lado dois copos altos e uma bandeja de prata com morangos.
Numa tentativa de ocultar a crescente tenso, ela acenou para a mesa vagamente e perguntou:
	No terminamos de comemorar?
	Vamos comear agora  respondeu ele, a voz alterada pela antecipao.
O corao dela saltou. Colocou o buque na mesa e voltou-se. Ele j tirara a casaca e o colete, desapertara a gravata e desabotoava a camisa. Sorriu para ela, os olhos brilhando maliciosos.
	Achei que amos precisar de beber e comer algo de tempos em tempos...
As noites sero minhas.
Esse acordo para o casamento voltou-lhe  mente e ela ficou mais nervosa. Alis, uma bobagem, raciocinou. No era uma virgem. J se dera a ele antes. Quisera Richard naquela tarde e ainda o queria. Por que aquela noite seria diferente?
	Pode soltar seus cabelos agora, Lynn  sugeriu ele.  Vou ajud-la. Essa tiara deve ser incmoda.
Com passos calmos, caminhou at ela e parou perto o bastante para Lynn sentir o odor da pele nua, msculo e almis-carado. Depois de soltar a tiara Richard colocou-a, com o vu, em cima de uma poltrona e comeou a tirar os grampos que mantinham o coque.
	Voc foi magnfica  murmurou, apreciativo.
Ela respirou fundo tentando abafar as sensaes fsicas despertadas pelos dedos msculos entre seus cabelos.
	Ficou com medo que eu falhasse?  perguntou, querendo entender o que passava pela mente de Richard.
	No. Nem mesmo Lawrence pde quebrar seu esprito.
Por que eu temeria qualquer coisa?
	Voc me fez ir at o limite extremo...
	Voc  uma sobrevivente, como eu.
Seria, mesmo? Enquanto ele soltava seus cabelos ela olhava a pulsao na base do pescoo forte, sentindo que estava prestes a ser apanhada por uma onda espessa de emoes que a levaria para onde ele quisesse. Richard segurou-lhe o queixo e ergueu-lhe o rosto. Ela o fitou diretamente, querendo ver o que ele sentia. Os olhos azuis mergulharam nos dela, porm espelhavam mais uma intensa determinao de conhec-la do que desejo de possu-la.
	Este  o dia mais feliz da sua vida, Lynn?  perguntou ele, suave.
O medo de se colocar nas mos de Richard a fez tergiversar.
	Eu sou assim to especial para voc?
	  foi a resposta simples.
	Ento, minha resposta  sim, tambm.
Os olhos dele se tornaram ternos, mais escuros.
	Eu no queria que mais tarde voc lamentasse no ter tido um casamento adequado. Chega de perder,. Lynn. Ns dois no perderemos mais.
Ela nunca teria pensado em Richard como perdedor.
A boca sensual cobriu a dela antes que fizesse esse comentrio e no era o beijo de um perdedor. Com sedutora maestria ele livrou a mente dela de qualquer pensamento coerente e a manteve prisioneira das sensaes. Lynn sentiu-se de volta  casa de vero, entregando-se  paixo que ele despertava, no querendo parar, querendo sempre mais e mais, os braos instintivamente passados no pescoo masculino.
S se deu conta de que ele desabotoara seu vestido, quando Richard pediu:
	Deixe-me tir-lo, Lynn.
Deslizou os braos dos ombros dele, que puxou as mangas para baixo. O corpete anatmico dispensava o uso de suti e quando o vestido escorregou para o cho ela ficou agudamente consciente dos seios nus aos olhos de Richard.
Entorpecida pelo desejo que a dominava ficou ali, fitando-o com dolorosa vulnerabilidade. Sentiu os mamilos enrijecerem sob o olhar dele e a tenso voltou por instantes. Ser que Richard gostava do que via? Um frenesi de incerteza desencadeou-se em sua mente. Na casa de vero ela no ficara nua e o calor do momento tornara essas preocupaes irrelevantes. Mas agora ia viver com ele noite aps noite...
Uma ligeira inclinao de cabea, o que queria dizer? Em seguida os lbios dele formaram um sensual sorriso, Richard ergueu os olhos e o que havia neles era imensa admirao. O estmago dela desfez o n: ele a desejava.
	Neste ltimo ms e meio sonhei, dormindo e acordado, com voc assim.  A voz dele soava rouca.  Lindos seios... ainda mais bonitos do que imaginei.
Um calor percorreu o corpo de Lynn e a felicidade encheu-lhe o corao. Richard estivera pensando nela naqueles dias, imaginando como seria aquela noite. Esta-parte do casamento deles no era um negcio. Era pessoal, muito pessoal.
Estava contente por se achar diante dele vendo-o tirar a camisa, revelando o peito moreno e musculoso, com plos crespos e sedosos, to negros quanto os cabelos.
	Voc tambm  bonito  sussurrou Lynn, admirada com o fsico magnfico do homem com quem se casara.
Ele riu, feliz.
	Tire a angua, Lynn. Quero ver voc inteira.
As mos dela moveram-se automaticamente para obedecer ao comando, a timidez banida pela total fascinao de v-lo livrar-se de toda roupa. Ele era to agressivamente msculo; o estmago achatado, as coxas fortes e a parte dele que sentira dentro de si, mas no vira at aquele momento, revelava que seu desejo era real e intensamente fsico.
Lynn livrou-se da angua e dos sapatos. Ia soltar a meia branca da cinta-liga de renda quando Richard pediu:
	Deixe as meias e a cinta-liga. Voc est incrivelmente ertica assim.
	Mas...
Voc est completamente nu, ela ia dizer. Porm o protesto morreu diante da selvagem excitao que brilhava nos olhos dele.
	Eu vou tir-las...  Richard se aproximou e abraou-a com tanta fora que a fez suspirar.  Sentir voc  ainda melhor do que olh-la! Voc  tudo que uma mulher deve ser.
Beijou-a e sua boca despertou um erotismo que fazia vibrar cada fibra do corpo deles.
O sexo ardente, rijo, pressionado contra o ventre dela estava no lugar errado. Procurando instintivamente uma posio melhor, Lynn ficou na ponta dos ps, descolou os quadris dos dele por um momento, com um meneio que o colocou no lugar certo, e ficou roando-se contra ele. Richard aprofundou o beijo quase cruelmente na impacincia do desejo.
As mos dele deslizaram pelas costas de Lynn, tocando-lhe a espinha, sentindo a cintura estreita, at envolverem as ndegas firmes. Ento, para intensa antecipao dela, ergueu-a  levou para a cama. Deitou-a, inclinou-se e beijou-lhe os seios enquanto soltava a cinta-liga.
Lynn descobriu-se segurando a respirao, todo seu ser atento ao toque dele. Depois de remover a cinta-liga, Richard tirou-lhe a minscula calcinha, tambm de renda branca, deixando-a nua como ele prprio e trmula de excitao. Ele abriu-lhe as pernas, os dedos tocando de leve a pele que reagia e, ento, para profundo espanto dela, inclinou-se e beijou-a de maneira intensamente ertica.
Ela recuou na cama, as mos agarravam os cabelos dele e tentavam empurr-lo, mas ao mesmo tempo era percorrida por agudas sensaes de prazer a cada toque da lngua de Richard. Todo o seu sistema nervoso parecia retesar-se e relaxar em exttica delcia. Impossvel descrever as intensas ondas de prazer que a envolviam e passavam por ela, umas aps outras. Lynn contorcia-se, gemia, sempre segurando Richard pelos cabelos, e implorava-lhe que a libertasse daquela doce tortura porque no suportava mais.
No instante seguinte, pareceu-lhe, ele estava sobre ela, um brao passado por seus quadris e Lynn sentiu-o dentro de si, preenchendo-a com uma gloriosa solidez que respondia  ansiedade do corpo dela. Lgrimas de gratido subiram-lhe aos olhos.
	Sim...  soluou ela.  Sim...
	Sim  ecoou ele.
Richard cobriu-lhe o rosto de beijos enquanto os msculos ntimos de Lynn apertavam-se convulsivamente em torno de seu sexo provocando um exultante prazer.
	Minha esposa  murmurou ele.
Meu marido, Lynn pensou.
E o primitivo impulso da posse mtua os fez mover-se ritmicamente juntos. Havia muitos picos de intenso prazer para Lynn, tantos que seu corpo parecia rolar de um para outro at que gradualmente eles se tornaram um mar constante de xtase e no lhe importou que Richard estivesse no controle, proporcionando-lhe aquela incrvel experincia.
Ele era maravilhoso, fazendo-a sentir-se como sendo tudo que queria numa mulher, na sua mulher, e compreendeu que tambm fora arrebatado pela mgica que os envolvia, por aquela profunda e sensual unio.
Em certos momentos ocorreu-lhe que no fazia nada para dar maior prazer a ele, limitando-se a receber tudo que Richard podia fazer por ela. Seus braos estavam pesados, mas ergueu-os e tateou os msculos retesados dos ombros dele, depois desceu-as para os mamilos, tocando-os, e continuou at o estmago, numa gentil carcia com a ponta das unhas.
A brusca interrupo da respirao de Richard a fez olh-lo. Os olhos dele brilhavam, fitando-a selvagemente e de repente o corpo dele retesou-se.
Richard forou-se mais entre as pernas dela, que o acompanhou no ritmo velho como o mundo, cada vez mais rpido, as mos nas costas dele, puxando-o para si como se quisesse retribuir o prazer que ele lhe dera pouco antes. Um grito gutural escapou por entre os lbios de Richard quando a acompanhou no gozo profundo e quase doloroso, partilhando com ela o xtase que os invadia, cada vez mais denso.
Com um profundo suspiro de contentamento ele relaxou, corpo contra corpo, a testa repousando sobre a dela. Lynn abraou-o com fora, amando-o. Os braos de Richard estavam passados em sua cintura e ele apertou-a mais contra si quando rolou de lado, fazendo-a acompanh-lo. Por um longo momento ficaram assim, entrelaados; felizes com a proximidade, seus corpos numa harmonia que nenhum dos dois estava inclinado a romper.
Lynn pensou em quanto era feliz; no muitos homens no mundo seriam excitantes e dedicados como Richard. No poderia ter imaginado melhor amante. Era perfeito e se aquela fosse uma amostra do que seriam suas noites, no teria do que se queixar.
	Obrigada por ter feito tudo to incrivelmente maravilhoso para mim, Richard  murmurou.
Ele suspirou, sua respirao tocando os cabelos dela.
	Era assim que eu queria que fosse... na nossa primeira vez.
Lynn sorriu. A preocupao dele em fazer tudo direito para ela a tornou ainda mais feliz.
	No teramos tido esta segunda vez se eu no tivesse gostado da primeira, Richard  informou-o para faz-lo saber que no se arrependia do que acontecera na casa de vero.
Richard recuou um pouco para fit-la.
	Aquela vez conta, ento?
	Oh, sim. Se no fosse ela eu no teria aceitado me casar com voc  confessou Lynn.  Apesar de toda sua argumentao, e olhe que havia muita persuaso nela, se no fosse aquela primeira vez eu no concordaria em me casar e partilhar a cama com voc.
	Bem, estou contente que esteja feliz  sorriu ele.
	E voc? Est feliz comigo, Richard?
O sorriso transformou-se em uma risada.
	Extremamente feliz. Agora tenho tudo que queria, inclusive voc, minha querida.  Esfregou o nariz no dela.  Creio que a este ponto precisamos de champanhe.
De maneira gentil, desvencilhou-se, ps-se em p e foi para a mesa, movimentando-se como um atleta em soberbas condies, confiante em sua nudez, confiante em tudo.
Um pequena nuvem introduziu-se no bem estar de Lynn. Era, de verdade, querida dele ou Richard estaria simplesmente encantado por ela ter aceito seu plano? Mais uma vez aconselhou-se a ficar de olhos abertos. Por outro lado, no conseguia ver a situao deles com o amargo cinismo que Caroline demonstrara naquela tarde.
No posso prometer-lhe um filho, Richard  lembrou-o e ficou atenta  reao dele.
Richard sorriu, tirando a garrafa do balde com gelo e amarrou um guardanapo no gargalo. Ainda sorrindo, fitou-a.
	No me importarei se no tivermos um filho, Lynn.
A atitude dele a confundiu. Sentou-se para observ-lo melhor.
	No foi para isso que se casou comigo... para atender ao testamento de Lawrence e controlar a empresa?
Ele soltou a rolha e deu a Lynn um olhar com um brilho de secreto divertimento, mas foi to rpido que ela no teve certeza.
	Nosso casamento ser o que fizermos dele, Lynn. No se preocupe com nada mais. Deixe o controle da empresa por minha conta e no quero mais falar de negcios.
Nem ela queria. No entanto, o pensamento que a assaltara na limusine no dia anterior voltou-lhe  cabea. Richard no deixava nada ao acaso, controlava tudo. Um pequeno arrepio percorreu-lhe a espinha. Ele controlara o casamento deles, a noite de npcias...
Pare com isso!, censurou-se. Estava tudo bem, no tinha motivo para temer nada dele. Richard no era feito da mesma massa que Lawrence Durant. Ele se importava com ela. Que outro motivo teria para querer agrad-la tanto?
Ela seria mais fcil de controlar com a persuaso do prazer, mais fcil de manipul-la  sua vontade...
Agitada por esses pensamentos, que disse a si mesma serem influenciados por Caroline, Lynn abraou os joelhos, num gesto instintivo de defesa. Por que no aceitava o que Richard dizia como vlido? Aquela altura, no havia razo para que no aceitasse. E queria aceitar.
Richard recolocou a garrafa no balde, pegou as taas e voltou-se.
	Voc parece uma adolescente sentada assim.
	Mas no sou  respondeu Lynn, alegre.
	No, graas a Deus! Esperei muito tempo que voc crescesse.
	Voc no estava esperando por mim  desdenhou ela, secretamente desejando acreditar.
Ele entregou-lhe um copo.
	Ficaria surpresa se soubesse quantas vezes fui tentado pela paixo que voc irradiava.
	Agora me tem...
Ela tomou um gole de champanhe tentando no demonstrar o quanto aquelas palavras significavam.
	E mais atraente ainda  murmurou Richard, colocando
seu copo na mesinha-de-cabeceira.
O corao de Lynn disparou quando ele se deitou a seu lado, a coxa tocando a dela, reacendendo a sensualidade, afagando-lhe os longos cabelos.
	Eu quero um filho, Lynn.  Havia uma ponta de preocupao em sua voz.  Voc no est usando anticoncepcional, est?
	No.
Ela lembrou-se que parte do acordo do casamento era que ficasse grvida o mais cedo possvel.
	Mas pode no ser um menino...
Com certeza seria mais fcil para ele se fosse um menino. Mas fcil para ambos.
	Nem voc, nem eu temos o senso real da famlia, Lynn.
Ser que era isso que ele achava que havia perdido? Ela sim e a ideia de ter uma famlia a atraa.
	Quero um filho seu  prosseguiu ele.  Vai ser uma criana que jamais se sentir rejeitada pela me, nem pelo pai. Ser um filho amado.
As palavras dele penetraram o corao dela.
Sim  murmurou.
E viu que Richard se excitava com o pensamento, a excitao passou para ela tambm.
Inclinou-se por cima dele e ps o copo na mesinha-de-cabeceira. No tinha mais vontade de beber. Queria...
Richard cortou-lhe o pensamento.
	Fique em cima de mim, querida.
Os olhos dele prometiam-lhe mais prazer e Lynn no precisou ser encorajada.
Enquanto se deitava em cima dele seu corao batia forte diante da perspectiva de sentir de novo o que sentira.
CAPITULO XI

Passaram a lua-de-mel na ilha Norfolk, um isolado paraso de tranquilidade no oceano Pacfico, uma linda jia da natureza que estava to longe de ser luxuosa que Lynn estranhou a escolha de Richard. Era o lugar perfeito para relaxar; nada de multides, de trfego enlouquecido. As vistas eram gloriosas, vales verdes, penhascos altssimos e os magnficos pinheiros de Norfolk acrescentavam sua distino s paisagens.
Richard alugara um chal aninhado na mata acima de Kingston, com o pitoresco panorama da Baa Creswell e o mar. O local oferecia todas as convenincias particulares e conforto que poderiam desejar, inclusive um spa.
Ali no estavam em cena, para alvio de Lynn, e podiam fazer o que gostavam, quando quisessem, sem intruses. Logo ficou bem claro que era exatamente o que Richard queria, uma vez que passavam a maior parte do tempo nus, na cama ou fora dela.
Os dias eram longos, preguiosos e intensamente sensuais. Na intimidade Lynn revelou um quase constante estado de disposio sexual; um simples olhar ou toque fazia seu corao disparar. Parecia-lhe que tudo era o mais perfeito que poderia ser entre recm-casados. Combinavam muito bem sexualmente e Richard estava sempre pronto a secund-la em qualquer coisa que imaginasse.
Tendo alugado um carro, dedicaram algumas manhs a fazer compras na pequena cidade. Uma ou outra tarde foram  praia da baa Emily e nadaram nas guas de um azul cristalino.
Ir a lugares tursticos era mais por acaso do que planejado, mas Lynn decidiu conhecer algo da histria da ilha. No tinha ideia, e no teve a menor premonio, que esse interesse levaria  ruptura da bolha de felicidade e harmonia dentro da qual vivia com Richard.
A ilha Norfolk j fora uma infame colnia penal para onde os condenados eram levados por navio e deixados sob uma cruel autoridade para viver suas vidas como lhes fosse ordenado. Pareceu a Lynn uma terrvel ironia que aquele lindo lugar houvesse sido usado como presdio e visitar o museu tornou a impresso ainda mais deprimente.
	Nenhuma sada a no ser o mar, pobres diabos  murmurou ela, lendo a narrativa do destino de um fugitivo.
Perguntou-se se morrer afogado teria sido melhor do que viver sob to impiedoso regime.
	Sim. Um isolamento como o que os presos estavam com certeza faz com que se tenha outra perspectiva da vida...  comentou Richard.
Lynn ponderou esse ponto de vista enquanto caminhavam entre as runas do presdio em forma de pentgono, onde os presos tinham vivido. Os chals georgianos que os detentos tinham sido obrigados a construir para os oficiais do governo ainda se erguiam na Travessa Quality e eram ocupados por aqueles que prestavam servios profissionais aos ilhus. Pouco restara do presdio que era mais uma sombria lembrana do que tinha sido.
Seis homens por cela, lera Lynn, e nas runas via-se o pouco espao de que dispunham. Ela no podia imaginar como seis homens fariam para dormir ali. Nenhuma privacidade. Nenhum conforto. Temperamentos destrudos pela forada proximidade.
Suspirou diante das misrias que eles deviam ter sofrido e comentou, triste:
	Creio que no posso chamar a manso de Lawrence de priso. No tem nada a ver com isto. Mas sempre me senti uma prisioneira l.
	Voc conseguiu escapar, Lynn  observou ele, com ar aprovador.
De repente ela foi dominada pela curiosidade.
	E voc, Richard? Como foi a sua infncia?
Ele sacudiu os ombros.
	Solitria.
	Mas tem dois irmos.
	Que no eram mais companhia para mim do que suas
irms eram para voc  retorquiu ele, sarcstico.
Lynn lembrou-se da reao da me dele quando ela dissera que Richard era bom.
	Eles eram maus para voc?  perguntou.
	No, particularmente. Na maior parte do tempo ignoravam-me. Havia uma certa entonao na voz dele que demonstrou que Richard preferia no falar nessa poca de sua vida, mas ela no resistiu, queria saber mais.
	Por qu?
	Eles eram mais velhos. No tnhamos interesses comuns.
Foram morar com o pai quando ele se divorciou da minha me. No tinham tempo para mim.  A nota de desagrado estava mais forte.  Foi s isso.
Lynn podia sentir a tenso crescer nele, mas insistiu, querendo conhecer sua vida, querendo saber o que o levara a ser como era.
	Quantos anos voc tinha quando houve o divrcio?
	Sete.
	E ficou com sua me.
	No, exatamente. Fui internado numa escola preparatria
particular.
	Um internato?
	Sim.
	Com sete anos?
	Longe dos olhos, longe do corao  recitou ele, cnico.
	Por qu?
Ele deu um sorriso frio.
	Minha me sempre achou que estraguei a vida dela. Ficou grvida do homem que amava, mas ele no tinha inteno de se divorciar da esposa por ela e lhe disse isso claramente. Ento, o intolerante marido divorciou-se dela quando soube que eu no era filho dele.
	Voc soube que ele no era seu pai aos sete anos?
	Sim.
Lynn imaginou o que teria sido para uma criana de sete anos a cena que a abalara tanto aos dezoito. Afinal, ela era adulta o bastante para ir embora e sobreviver sozinha. Richard tinha sido mandado embora.
	O internado era como uma priso?  perguntou, baixinho.
Ele ficou olhando ao longe, alm das runas do presdio, da praia rochosa e do mar. Ser que tinha querido fugir?, perguntou-se Lynn.
	No era to ruim  respondeu ele, devagar  para os meninos que se destacavam em esportes. Ou nos estudos. Era como estar acima de todos.  De novo o sorriso frio.  Adquiria-se o que era respeitado por todos: professores, alunos e os pais dos alunos.
Lynn no precisou perguntar no que ele se destacara. Estava claro no seu fsico e em sua capacidade de chegar ao topo do imprio financeiro de Durant. Imaginou que ele teria sido um rei em todas as escolas que cursara. Na universidade tambm. Entendia agora o ar de auto-suficincia, o controle que Richard exercia sobre si mesmo: precisara dirigir toda sua vida.
	Por que convidou sua me para o nosso casamento?
Ele desviou o rosto, mas antes ela pde ver um brilho em seus olhos.
	Porque  minha me, por menos que eu queira.
Um caso de amor e dio? Estranho como nenhum dos dois se dava com a mulher que lhes dera a luz, porm algo muito profundo insistia em que havia um lao, por mais tnue que fosse.
	Por que acha que ela veio?  perguntou Lynn, lembrando-se da nota de antagonismo amargo nos comentrios de Clare Seymour.
	Porque sente um perverso orgulho pela posio que eu atingi.
Como a me dela. Um senso de opresso pesou no corao de Lynn quando passaram sob o arco de pedra do Porto de Hangman, uma parte da priso que ainda estava de p. A angstia causada pelas vidas perdidas ali adicionou-se  sensao de que sua vida e a de Richard tinham sido influenciadas pelas ambies dos outros.
Afinal, ele se tornara brilhante pela rejeio que poderia ter destrudo sua auto-estima. Mas ficara marcado tambm. Sua necessidade de ter uma famlia era mais profunda do que a dela. Imaginou se j estaria grvida.
Fitou-o com um olhar interrogador. Ser que isso estava em sua mente quando faziam amor?
	O que , agora?  perguntou ele, notando o olhar.
A pergunta escapou de seus lbios.
	Como planeja controlar a empresa se no tiver um filho?
	H muitos meios  foi a resposta com ar distante.
	Conte-me um deles  insistiu ela.
	Deixe isso comigo, Lynn.
Ela o segurou pelo brao, fazendo-o parar.
	No quero me sentir culpada se tiver uma filha. Por favor, Richard, eu quero saber.
Ele franziu a testa.
	No h motivo para se sentir culpada. Estamos casados.
Vamos ter um filho. Isso responde aos termos do testamento de Lawrence, seja um menino ou uma menina. Sou apenas o executor do testamento.
Caroline se mostrara aflita por Richard ser o nico executor, como se isso de algum modo pudesse afetar sua famlia. Mas, como? Sacudiu a cabea.
	No entendo.
	No  para voc se preocupar com isso, Lynn.
Ela no queria ser posta de lado. Teimou.
	Quero que me explique.
Ele estava exasperado.
 Muito bem. O testamento de Lawrence no pode ser homologado at que seus termos sejam preenchidos. Sua me e irms no podem receber suas heranas at que ele seja homologado. O que significa, no curso normal dos acontecimentos, que tero de esperar... esperar...
Ele falava com satisfao e, pareceu a Lynn, com uma profunda hostilidade  sua famlia.
	...at quando tivermos um menino  prosseguiu ele, num tom de amargo triunfo.  O que poder ser nunca.
Lynn procurou encaixar as palavras e atitude dele num contexto compreensvel.
	Isso no significa nunca para voc tambm?
Os lbios dele curvaram-se e havia desprezo em seus olhos quando Richard respondeu.
	Cedo ou tarde suas irms vo ficar impacientes por receber a herana. Sou inclinado a pensar que algumas delas  sero propensas a me vender as aes que no podem tocar. Como executor do testamento, sou a nica pessoa que pode oferecer-lhes isso.
Na cabea de Lynn girava tudo que Caroline dissera... as implicaes... as suposies...
A noiva manda... a noiva que poderia ou no poderia ter o filho cujo nascimento liberaria suas heranas.
Danamos conforme a msica dele... Sua msica tambm, espero.
nico executor... Est com o poder e os cordes da bolsa.
A que preo?, pensou Lynn e perguntou:
	Voc vai oferecer-lhes um acordo justo?
A pergunta dela foi feita com aflita urgncia, mais aflita ainda ao pensar que Richard poderia manipular a situao de maneira srdida. Se ele fosse farinha do mesmo saco que Law-rence Durant no ia querer, no poderia, viver com ele.
Richard ergueu as sobrancelhas.
	Absolutamente justo.
O tormento terrvel cessou.
	No quero que haja nenhuma possibilidade legal de voltar atrs  acrescentou ele, secamente.
Era assustador como Richard mantinha completo controle... era inexorvel... No entanto, no havia nada que Lynn pudesse criticar. Lawrence havia feito aquele abominvel testamento, no Richard, e o ato de se casar com ela o havia solapado, com o que ela concordara.
Justia fosse feita, ele havia sido persuasivo, mas agora Lynn suspeitava que seu marido tinha um senso de justia todo pessoal... Lembrou-se daquilo obscuro e perigoso que notara no dia do funeral. Seu instinto protetor despertou ao ver nele apenas o caador, sem a fantasia do amante solcito.
Richard permanecia imvel, mas havia um qu to letal em sua atitude que o corao dela se confrangeu. Ele estava pronto para eliminar qualquer obstculo do seu caminho, pensou. Um profundo orgulho estava estampado no rosto dele e os olhos dardejavam raios azuis.
	Por que se preocupa com suas irms?  perguntou.  Elas se importaram com voc?
	No.
A expresso dele endureceu mais.
	Ficaram na casa do pai pelo que podiam tirar dele e ainda so parasitas. Esquea-as, Lynn, como elas a esqueceram.
Ele tinha razo, mas ela no podia ser to fria.
	 o que sente pelos seus irmos?
	Eles no exploraram o pai. Ambos cuidaram de suas vidas e respeito isto. Suas irms no fizeram nada que eu possa respeitar. Nada.
	Creio que o pai dos seus irmos no era como Lawrence, que queria escravos ao redor...
	Voc no aceitou ser escrava dele  retorquiu Richard.
 Suas irms viam mais vantagem em aguentar o jugo a pegar outro caminho.
	Talvez achassem que aquele era o nico caminho...
	O mais fcil  escarneceu ele.  No se importavam de ter que se rebaixar. Viviam do dinheiro de Lawrence e qualquer delas se casaria comigo para continuar assim.
Lynn no podia negar isso, no entanto de certo modo compreendia as irms, dominadas desde pequenas. Tinham pago caro pelo que recebiam do pai, entregando corao e alma.
	No sabe o que foi para elas todos aqueles anos antes de voc entrar em cena, Richard  argumentou Lynn, perturbada com a dureza dele.  A diferena entre eu e minhas irms  que minha me no tentou me influenciar. Fui posta de lado.-Minhas irms eram encorajadas a bajular o pai. Foi o que ensinaram a elas...
Ele a fitou, incrdulo.
	Voc as defende? Depois de tudo que fizeram?
Ela no tinha certeza de por que lutava pela causa das irms, a no ser que Richard lhe parecia muito impiedoso e sabia, quem melhor do que ela?, que havia circunstncias atenuantes ao modo que suas irms tinham agido e  escolha que haviam feito.
	Por mais solitrio que voc tenha se sentido no internato, tinha autonomia de fazer o que bem entendesse com a sua vida, sem interferncia, sem o tipo de punio que Lawrence usava.
No julgue minhas irms, Richard. Voc no viveu a vida delas.
	No, no vivi  concordou ele.  Talvez meu isolamento tenha sido melhor para ns dois.
Lynn fitou-o sabendo que ele estava lhe escondendo muito. No sabia, na verdade, o que ele pensava dela. A atrao sexual era evidente e no poderia ser fingida. Mas o restante seria real? Qual era a verdade que se escondia no corao e na alma de Richard Seymour? 
Ento, ele sorriu e ela sentiu-se melhor, pois o marido no poderia fingir a admirao que tinha por ela.
	Voc  uma pessoa surpreendente, Lynn.  Ele deu um passo  frente e segurou-a pelos braos, o desejo evidente no seu olhar.  Vamos deixar este lugar deprimente e voltar para o chal. Sei de coisas muito melhores para fazermos.
Ela lembrou-se do que ele dissera no dia do casamento: Agora tenho tudo que queria, inclusive voc, minha querida.
Muito mais tarde, na cama, Richard estava relaxado, feliz, e Lynn pensou em que o marido era um homem complexo, mas esperava um dia conhecer seu passado.
Sorrindo, ele acariciou-lhe o ventre.
	Acha que nosso filho j foi concebido, Lynn?
	Bem, se voc for potente e eu frtil, no podemos ter errado...
Ele riu e beijou o local onde antes estava sua mo. Os beijos continuaram e a respirao de Lynn alterou-se em antecipao ao que ele ia fazer. Mas antes que sua mente fosse nublada pelo prazer, ela fez uma silenciosa prece.
Por favor, Deus, que nosso filho seja um menino!
Um filho faria a influncia de Lawrence desaparecer de suas vidas. Richard teria o que queria, controle total da empresa, enquanto sua me e irms tambm ficariam livres.
Ento, talvez o casamento deles pudesse ser como ela tanto queria.

CAPITULO XII

	 um menino  afirmou o tcnico que manipulava o aparelho de ultra-sonograia.
No monitor Lynn podia ver, sem sombra de dvida, a definio sexual do beb no seu ventre. Podia relaxar, agora, e pensar no nascimento de seu filho sem a angstia de pensar que poderia ser uma filha, o que alteraria tudo. Para ela, menino ou menina no queria dizer nada, porm para Richard era importante.
Durante os ltimos quatro meses, desde que a gravidez havia sido confirmada, dissera a si mesma que o filho deles seria amado, fosse qual fosse seu sexo. Agora tinha mais empatia pela me. Alicia tivera cinco filhas, cada uma delas* negando-lhe a liberao mental e emocional que um menino teria proporcionado.
Claro, o beb ainda precisava nascer, mas a ultra-sonografia revelara que seu desenvolvimento era perfeito e ela no teria problemas de sade, a no ser a fadiga natural numa gravidez. Em mais quatro meses e meio o testamento de Lawrence estaria satisfeito, terminando sua tirania.
Um filho dela e de Richard. E se bem que fosse o neto legal de Durant, no havia qualquer conexo gentica entre o pequeno e o homem que ela considerava um sdico egosta.
	Pode vestir-se agora, sra. Seymour  disse o tcnico.  Espero que o fato de ser um menino seja uma boa notcia para a senhora e seu marido.
	Sim, . Se bem que ele gostaria tambm se fosse uma menina.
	Talvez na prxima vez  sorriu o tcnico.
Prxima vez. Lynn no podia pensar nisso, no naquele momento. S depois de avaliar Richard como pai. Tinham intimidade na cama, mas o passado do marido ainda era um mistrio para Lynn. Parecia que ele guardava sua vida em compartimentos separados e s permitia a entrada da esposa nos que considerava parte do relacionamento deles.
Assim que saiu da clnica, Lynn pegou o celular que Richard insistia que levasse sempre com ela. Era quase meio-dia e o calor de fevereiro a fez parar sob uma rvore para fazer o telefonema. Se bem que no fosse uma emergncia, estava aflita para contar-lhe o resultado da ultra-sonografia. Se fosse uma menina, teria que ter tempo para se preparar, mas era um menino.
Sorria quando atenderam.
	Escritrio do sr. Seymour. Em que posso ajudar?  disse a voz impessoal.
	Aqui  Lynn Seymour, esposa de Richard. Eu queria falar com ele.
	Oh!  Houve um curto silncio surpreendido, pois era a primeira vez que ela ligava para l.  Ele est numa reunio, sra. Seymour. Um momento que passo a ligao.
	Se for uma reunio importante...
	No, no. A senhora tem prioridade mxima.
Ouviu a secretria passando a ligao e dizendo que era ela. A voz de Richard soou preocupada.
	Lynn, o que foi?
Ela sorriu da angstia dele.
	Estou bem, Richard.  o beb... Eu queria lhe dizer que vamos ter um menino.
	Um menino?  Ele parecia aturdido.  Como sabe?
	Fiz uma ultra-sonografia.  Ela repetiu, orgulhosa:   mesmo um menino.
Silncio por vrios segundos. Ento, ele voltou, reprovador:
	Voc marcou uma ultra-sonografia e no me disse nada?
Uma sensao de culpa insinuou-se no contentamento de Lynn.
	Eu no quis dizer  confessou.
Ele suspirou:
- Eu queria ter estado com voc, Lynn. O desapontamento dele a tornou ainda mais culpada. Fora errado exclu-lo da experincia de ver o filho pela primeira vez.
	Desculpe, Richard. Iria atrapalhar o seu dia e...
Ela hesitou; estava atrapalhando o dia dele naquele momento. Sua deciso havia sido egosta, no considerara os sentimentos dele.
	Estou com um vdeo da ultra-sonografia  acrescentou.
 Voc o ver hoje  noite.
	Ah!  Havia alvio no suspiro dele.
	O beb  perfeito  assegurou.
	Isso  timo, Lynn. timo!  Mais calor agora.  A ultra-sonografia mostra mesmo que  um menino?
	Sem dvida. Acabo de sair da clnica. Achei que voc gostaria de saber.
	Sim. Obrigado.
Afinal, fizera bem em telefonar, reassegurou-se Lynn.
Bem, vou deix-lo voltar  sua reunio...
Um menino...  repetiu ele, aturdido.
No ansioso, no triunfante: aturdido.
O sexo do filho deles no importava realmente para Richard, pensou Lynn. Um menino no representava a extenso do seu ego, como para Lawrence Durant. Richard no era farinha do mesmo sacol
Embalada pela esperana de uma feliz futura famlia, Lynn despediu-se:
	Nos vemos  noite.
	Sim,  noite...
Ela pde perceber o riso na voz dele e ficou alegre.
	At, ento  e desligou.
Andando pelo estacionamento do prdio Lynn pensava nos dois lados do carter do marido. Ele podia ser to terno quanto era rude, gentil, forte, clido e terrivelmente frio. Socialmente, mantinha uma encantadora polidez que jamais era quebrada em qualquer circunstncia, o perfeito convidado, o perfeito anfitrio. No entanto, Lynn sabia que a mente dele trabalhava em dois nveis: superficialmente, satisfazendo as exigncias das demais pessoas; e profundamente: guardando tudo que elas diziam que fosse importante para ele.
Percebera isso por comentrios que o marido fazia quando ficavam a ss. s vezes Lynn recebia essas pequenas confidncias como uma prova de que Richard confiava nela a ponto de revelar seus pensamentos ntimos. Outras vezes preocupava-se com o que ele no dizia, certa de que guardava para si a maioria dos fatos.
No entanto, no podia se queixar da generosidade dele, principalmente no que lhe dizia respeito. Como seu carro, quando o ganhara. Tudo que ela quisesse, ele lhe dissera. O custo no importava. Ela podia ter escolhido entre um Porsche ou uma Ferrari, mas no se via transportando cermicas e materiais em carros esporte. Decidira-se por um sedan e ele escolhera o Mercedes-Benz ML320, o melhor do mercado.
Ajeitou-se no assento do motorista, pensando que aquele carro ultra-seguro era muito mais prtico para transportar um beb e toda sua parafernlia. Sorrindo a essa perspectiva, saiu do estacionamento e dirigiu-se para casa, pegando a estrada que levava a Rose Bay. Ao ver a propriedade ela se apaixonara, e Richard a comprara no mesmo instante.
A construo era moderna e dava para a face norte. Todas as salas e quartos, com uma das paredes inteira de vidro, eram voltados para a baa. Uma casa aprazvel, pensara Lynn, completamente ao contrrio, em estilo e clima, da imponente manso Durant. E situada do outro lado da baa, tambm.
As paredes brancas e o piso de lajotas haviam lhe dado liberdade para escolher as cores que bem quisesse para os mveis. E escolhera cores alegres e brilhantes, nada sombrio ou neutro. Talvez fosse o temperamento italiano se revelando, mas ela gostava de vibraes positivas.
Os quatro meses anteriores tinham sido bons, com Richard fazendo sua parte do acordo e Lynn a dela. Parecia-lhe tanto tempo j, mas tinha sido apenas em agosto do ano anterior. Eles se haviam casado na primeira semana de outubro e ela reconhecia que tinha pouco de que se queixar e muito de que ser grata.
Richard era um bom e dedicado marido. Amante fantstico. Sua casa era linda. O que havia sido o conservatrio, numa extremidade da construo, fora remodelado para servir de estdio para ela e equipado com tudo que um ceramista pode precisar ou querer.
As coisas que deixara guardadas em Broome haviam sido transportadas para l. Um decorador de interiores encarregara-se de comprar os mveis e equipamentos que ela indicava. Tinham sido contratados arrumadeira, cozinheira, copeira e jardineiro. Lynn tinha muitas horas livres para trabalhar e criar novas peas de cermica.
Richard oferecia-lhe uma vida privilegiada, tudo era feito segundo suas necessidades e desejos. No entanto, faltava-lhe a sensao de ser amada, incondicionalmente amada. Bens materiais no preenchiam esse anseio.
Desde que voltara a morar em Sdnei ela vira Felicity e Vanessa em acontecimentos sociais, como uma estreia na pera, um vernissage de mostfa de arte. E o nico contato com elas fora um polido cumprimento. No que quisesse estreitar laos com as irms, mas no gostava de viver como se as ignorasse.
Quando fora comprar as roupas que convinham  esposa de Richard Seymour, uma vez encontrara a me na Double Bay Butique e impulsivamente a convidara para ir tomar um caf. A me aceitara, se bem que Lynn logo percebera que o fizera por curiosidade e no com inteno de iniciar um relacionamento.
	Voc est grvida?  perguntara Alicia diretamente, de pois de se haverem sentado a uma mesa.
	Sim, estou  respondera Lynn.
Ela estava consciente de que seria um alvio para a famlia saber que havia um beb a caminho, uma criana que liberaria as heranas delas.
Alicia sorrira e fizera um comentrio irnico.
	Richard no perde tempo.  Depois a olhara de soslaio.
 Ele  to ambicioso quanto Lawrnce.
	, mesmo?  fora a resposta dela, despreparada para aquele tipo de comentrio.
	Fico imaginando se ele ir devorar sua vida como Lawrence devorou a minha.
A conversa entre as duas no havia ido muito alm disso e deixara Lynn com a perturbadora sensao que ela costumava pr de lado dizendo a si mesma que Richard no era como Lawrnce e que sua vida no seria como a de sua me.
Ocupada por esses pensamentos, mal prestou ateno no caminho de volta para casa. Virando automaticamente para sua entrada de garagem, notou que chegara em casa sem perceber.
Censurando-se pela falta de cuidado, guardou o carro na garagem, ainda pensando na vida de sua me. Uma vez dentro de casa, foi para o estdio onde sua privacidade era assegurada e telefonou para Alicia Durant.
Lynn?
Na voz da me havia a nota de perplexidade de quem no imaginava o que a quinta filha poderia querer com ela.
	Vai ser diferente, me.  Lynn falou como se a me soubesse o que pensara.  Fiz uma ultra-sonografia. O meu beb  menino.
Silncio. Sua satisfao em comunicar o fato teve vida curta.
	Ligou para jogar isso na minha cara?
	No  protestou Lynn.  Eu sd queria...
Parou sem saber o que dizer. Como explicar o desesperado desejo de apagar o passado?
	Partilhar sua alegria?  voltou a me, sarcstica.
	No... Por favor, conte a Caroline  pediu, sem jeito.  E s minhas outras irms. Elas podero receber suas heranas quando o beb tiver nascido.
Lgrimas ardiam-lhe nos olhos. Desligou o telefone e afundou na poltrona, rendendo-se  onda de emoo. Aceitar os fatos era o mais sensato. Sua mente reconhecia isto. No entanto, muitas vezes no se podia ignorar a dor. Ela queria uma me. Queria um pai. Queria as irms. Queria que Richard a amasse. Por que no conseguia ser certa para algum?
De sbito, percebeu que tinha as mos no ventre e lembrou-se do seu filho, do pequenino ser que vira no monitor do computador, palpitando em seu ventre. Uma nova vida comearia quando o beb nascesse. Ela poderia dar amor, ento. Amor de me, pelo menos. E faria tudo maravilhoso para seu filho. Ele jamais seria privado do que realmente importava.
Depois de se refazer, Lynn subiu para a sute que ocupava com Richard. Foi lavar o rosto marcado por lgrimas, prendeu os cabelos, vestiu short e camiseta, ento desceu para trabalhar um pouco. Lidar com cermica era o melhor calmante.
Seu estmago, vazio e inquieto, dizia-lhe que comesse alguma coisa, apesar da falta de apetite. Precisava pensar no filho. Passou pela cozinha onde a cozinheira e governante, Rene Harper, lidava no fogo.
	Pronta para almoar? perguntou Rene.
A governante tinha uma disposio maternal para com Lynn, que escolhera a gorducha senhora de meia-idade entre outras candidatas por ter instintivamente gostado dela e isso parecia-lhe mais importante do que impressionantes referncias.
	No se preocupe comigo, Rene. Quero apenas um sanduche e um copo de suco de fruta.
	Comprei lindos abacates. Eles so muito nutritivos, sabe?
Bons para o beb.
	Est bem, ento me prepare um tambm.
Quis comer ali na cozinha, mesmo, e contou a Rene sobre a ultra-sonografia. A governante exultou com a notcia e falou sob encantos e caractersticas dos menininhos. A conversa elevou o moral de Lynn e quando foi para o estdio ps-se a moldar uma pea com entusiasmo.
A tarde passou depressa. Uma batida  porta do estdio tirou a concentrao do vaso que modelava. A argila alterou-se na roda e ela voltou-se para a porta, impaciente.
O que ?
Os empregados sabiam que suas horas no estdio eram sagradas. A porta abriu-se e Rene, com um gesto de desculpa, fez Alicia entrar!
A sra. Durant insistiu...
Lynn ergueu-se com as mos sujas de argila e fitou, incrdula, a elegante figura de Alicia Durant, que parou olhando com interesse os potes e vasos dispostos sobre pedestais. Quando voltou-se para a filha parecia to espantada quanto ela.
	 isto que voc faz?  perguntou, com respeito na voz.
	...  Lynn respondeu, tensa. Depois fez um aceno para a governante.  Obrigada, Rene.
A porta fechou-se.
Alicia movimentou-se com cuidado at um pedestal que era encimado por um vaso alto em tons de .azuis que tinham o efeito cristalino que Lynn estava experimentando.
	Trabalho seu?  perguntou, tocando-o.
	Sim.
	 bonito  Alicia sacudiu a cabea.  Muito bonito.
Surpreendida pela inesperada apreciao, Lynn pde apenas pronunciar um fraco:
	Obrigada.
A sra. Durant continuou a andar devagar pela ampla sala, admirando as peas, ocasionalmente tocando uma ou outra. Lynn no tinha ideia do que passava pela cabea de sua me, por que viera. Nervosa, foi at a pia, lavou as mos e enxugou-as no avental que usava, esperando que Alicia completasse a volta. Quando estava diante dela de novo, seu olhar era avaliador.
	Eu no a conheo, absolutamente  disse, parecendo falar mais para si mesma.
	Voc no quis conhecer.
Era a verdade dita com simplicidade.
	No, eu no quis  concordou Alicia.  Voc foi um ato desesperado que no deu certo, Lynn. Na maior parte do tempo eu no suportava sequer olh-la. Senti alvio quando foi embora.
Fiquei pensando nisso desde que me ligou para dizer do beb.
	Sinto muito. Eu no queria perturb-la.  Lynn suspirou e tentou expressar seus pensamentos.  Na ltima vez que nos encontramos voc fez paralelos e isso me assustou.  Olhou a me, num apelo angustiado.  Preciso que minha vida seja diferente.
Alicia assentiu.
	Estou contente com esse menininho por voc, Lynn. Estou,mesmo. Voc no merecia o que teve de Lawrence e de mim.  Espero que Richard a trate bem.
	Obrigada.
	Quanto s condies do testamento, tenho certeza que Lawrence pensou em mim  disse, ironicamente.  Felicity e Vanessa esto bem de vida com o que ganharam nos seus divrcios. No entanto, a novidade ir dar alvio a Caroline e Nadine. Vou contar a elas.
	Por favor... Caroline fez uma referncia a isso no meu casamento.
	Imagino  Alicia sorriu, triste.  Ela odiava Lawrence provavelmente mais do que voc.
	Por qu?  quis saber Lynn, que jamais imaginara isso.
	Porque ela  inteligente e esperta. Pensou que pudesse ajudar o pai, mas ele escarneceu a ideia. Uma mulher entre seus ps?
Impensvel para um homem como Durant.
	Por que ficou com ele, me?  perguntou Lynn.
Queria entender a escolha de Alicia, j que aquele no podia ter sido um casamento feliz para ela.
	Oh, Lawrence era poderoso, excitante e desafiador. Outro homem no chegaria aos ps dele. Eu no estava preparada para viver sem ele.  Alicia fitou a filha.  Imagino que voc sinta o mesmo por Richard.
Sentia? Lynn jamais pusera seus sentimentos nesses termos, no entanto as palavras da me, outro homem no chegaria aos ps dele, eram verdadeiras.
	At o fim eu quis Lawrence  continuou ela, o olhar perdido no nada.  Olho para trs agora e vejo tudo que fiz para mant-lo comigo... o que ganhei e o que perdi... e compreendo como era obsessiva em relao a ele. Talvez fosse at uma doena.  Calou-se, respirou fundo, depois olhou triste para Lynn.  Realmente, tnhamos escolha? Ou tudo aconteceu conosco num arrasador poder de foras?
Era uma pergunta que fazia pensar. Lynn lembrou-se do comentrio de Richard sobre ela ter escolhido ir embora de casa, no recebendo mais nada de Lawrence. Na realidade, sua fuga de uma vida que se tornara um pesadelo no havia sido uma escolha consciente. Ela fora embora porque tinha que ir, empurrada pelo insuportvel. At mesmo a escolha de se casar com Richard havia sido influenciada por foras emocionais.
	Por que veio aqui, me?  perguntou.
Estava curiosa e no se sentiu sem jeito ao perguntar. A franca conversa o permitia. Alicia sacudiu os ombros.
	Na certa acha isso estranho depois de tantos anos de indiferena, mas de repente eu quis conhecer voc, Lynn.  Ela deu um sorrisinho.  Talvez seja um pouco tarde para uma ligao me-filha. Impossvel, eu diria, por tudo que carregamos. Mas gostaria de conhecer a pessoa que voc .
Lynn ficou olhando para a me, sem acreditar no que ouvira. O oferecimento de uma ponte que as unisse de algum modo era como o arco-ris depois de anos de chuva. Com medo que ele desaparecesse, Lynn procurou mant-lo sem parecer emotiva demais.
	Eu tambm gostaria...  disse do modo mais casual que pde.  Conhecer voc, quero dizer.
	No sou uma pessoa muito bonita  avisou Alicia.
	Estou interessada  sorriu Lynn.  Voc  a minha me.
	Sim, sou  concedeu ela, seca.  Talvez possamos almoar juntas na semana que vem... ir comprar coisas para o beb...
	Podemos, sim. Telefone-me quando quiser.
	Um menino...  Alicia sorriu e balanou a cabea.  Eu teria dado minha vida por um menino!
	Eu me sentia assim nesta manh, antes de saber.
O olhar da sra. Durant aqueceu-se, por fim.
	 bom conversar com voc sobre isso, sem recriminaes.
Ela no queria sentir-se culpada, pensou Lynn.
	Bem, vou indo  disse Alicia, contente.  Vou deix-la com seu trabalho.
	Eu a acompanho  ofereceu Lynn, tirando o avental.
	No. Encontro o caminho.  Alicia aproximou-se e tocou-lhe o brao.  Obrigada, Lynn. Eu telefono.
Lynn sentiu-se emocionada com aquele gesto. No era um toque de amor, mas era uma aproximao e no precisava de mais palavras. Sua me caminhou rapidamente para a porta, abriu-a, saiu e fechou-a, deixando-a com a sensao de que uma porta muito mais delicada se abrira.
Tirou o avental, desinteressada do trabalho. Foi para a porta de vidro deslizante que dava para o jardim e saiu. Um novo comeo, pensou, aspirando o ar salgado da baa, adorando a brisa que brincava com seus cabelos. Levou a mo ao ventre e sentiu o pequeno volume que abrigava seu filho e de Richard. Ia ser um novo comeo para todos.
Dali por diante seria mais aberta com Richard e o encorajaria a ser mais aberto tambm. Os sentimentos que ficavam escondidos podiam assumir outros significados, alimentando dvidas e preocupaes. Ela queria conhecer mais das escolhas dele, queria saber para onde estava indo e o que o levava.
O caador...
Aquela noite, prometeu a si mesma. Aquela noite no ficaria sem as respostas que queria.

CAPITULO XIII

Para a me do meu filho" eram as palavras  no carto que acompanhava as flores. O corao de Lynn parecia aumentar toda vez que olhava o lindo arranjo de rosas de um lindo vermelho-escuro. Levou-o para o quarto para poder olh-lo enquanto se vestia para o jantar de comemorao que Richard marcara. O perfume dos botes perfeitos, entreabertos, pareciam encher o quarto adicionando mais encanto ao pensamento,., rosas vermelhas, amor.
"Estarei em casa s seis e meia", ele escrevera e era quase esse horrio. Deveria estar pronta desde que as flores haviam chegado, mas no calculara bem o tempo. Seus dedos lidavam com o delicado fecho da corrente de ouro com um corao, at que afinal o fecharam.
Escolhera um vestido vermelho colante que lhe marcava as curvas, mas no deixava ainda transparecer o pequeno volume em seu ventre. Ele era abotoado na frente, desde o decote em V at a barra, o que a fazia sentir-se sexy, acessvel ao toque de Richard. Deixou os cabelos soltos.
Depois de calar sandlias douradas, colocou perfume nos pulsos e atrs das orelhas. Cheirou as rosas mais uma vez e desceu a escada para a sala de estar onde o vdeo da ultra-sonografia estava pronto para ser passado. Ia ser emocionante na enorme tela da tev.
Nem bem havia visto se tudo estava em ordem quando ouviu o poderoso motor do Jaguar de Richard. Correu para receb-lo. Ele chegou  porta primeiro, abriu-a quando Lynn entrava no hall e ela parou olhando o homem com quem se casara, o pai de seu filho.
Faria qualquer coisa para mant-lo junto de si? E a resposta foi sim.
	Posso entrar?  ele ergueu uma sobrancelha, enquanto um sorriso confiante iluminava-lhe o rosto.
Ela riu.
	Creio que pode.
	Deus! Como voc fica bem de vermelho!
Em trs passos estava diante de Lynn e abraou-a. Seus olhos procuraram uma resposta nos dela.
	Voc est feliz por ser um menino?
O sorriso de Lynn veio do corao.
	Muito feliz e obrigada pelas adorveis rosas.
Ele a beijou longa e profundamente, fazendo-a sentir-se amada, apesar de ele no o dizer com palavras.
Talvez diga essa noite, mais tarde, pensou ela, o corao cheio de esperana. Levou-o para a sala de estar, pegou o controle remoto da mesinha para caf e fez Richard sentar-se no sof antes de apertar o boto. Sentou-se ao lado dele, que passou um brao por seus ombros e viram a primeira figura do seu beb aparecer no vdeo.
Lynn repetiu o melhor que pde as explicaes que o tcnico lhe dera. Richard, calado, observava o que via. Ela apertou o boto "pausa" quando o foco entrou na rea genital.
	Aqui... v?
Richard riu e seus olhos cintilaram.
	Bem, com certeza ele tem o equipamento prprio de um menino... Pelo jeito, muito eficiente!
	Isso  tudo em que vocs, homens pensam  brincou ela.  Potncia e performance.
	Hum...  Ele se aproximou e desabotoou o primeiro boto do vestido dela.  Creio que minha potncia est pronta e garanto a performance.
	Vamos sair para jantar, Richard!  lembrou-o ela.
	E o adiamento aumentar o prazer  murmurou ele, inclinando-se para beijar o vale entre os seios dela, depois fechou o boto.  Uma lenta escalada em ordem: champanhe, lagosta, frutas tropicais...
	Pouco champanhe  avisou ela.  No  bom para o beb.
	Apenas uns goles para formigar na sua lngua.
Richard estava conseguindo de novo, fazendo sua sexualidade torn-la consciente apenas dele e de si mesma... Mas por que se importava com isso nessa noite? Era uma ocasio de festa, porque no podia simplesmente alegrar-se? Ainda estaria casada com ele no dia seguinte, no outro e no outro. Teria muito tempo para ultrapassar as defesas dele e chegar mais perto do homem que amava.
Foram a um restaurante famoso pelos frutos do mar. Richard flertou com ela o tempo todo, provocante, sedutor, e Lynn aceitou suas atenes. O delicioso champanhe francs formigou na lngua dela e em todo seu corpo. A lagosta estava macia e divinamente temperada, no precisando de nenhum outro molho. O abacaxi que a acompanhava fazia um delicioso contraste de gostos.
Estavam to entretidos um com outro que no viam ningum mais e ficaram surpreendidos quando Clare Seymour parou ao lado da mesa deles.
	Vocs dois parecem estar muito bem  comentou ela.
	Me...  As sobrancelhas dele ergueram-se.  Suponho que esteja aqui com algum?
	Com amigas, uma delas faz anos hoje...
Clare indicou uma mesa de onde vrias senhoras olhavam, curiosas.
Lynn sorriu, pouco  vontade com a tenso que se formara entre me e filho.
	Espero que esteja tendo uma boa noite, sra. Seymour.
	Vocs dois parecem estar comemorando algo...  Clare sorriu, insinuante.
	Sim  respondeu Lynn e no vendo mal em contar a notcia, prosseguiu:  Soubemos hoje que estamos esperando um menino.
O frgil sorriso de Clare transformou-se em expresso irnica.
	Ento, Lawrence vai ter o neto que queria.  Voltou-se para o filho.  E voc conseguiu o filho que queria.
	No posso dirigir a natureza, me. Agora, se no se importa...  ele fez um gesto para a mesa dela  voc interrompeu uma comemorao.
A me ignorou-o.
	E voc, querida, deve estar feliz por cumprir o que seu pai no conseguiu no leito nupcial. E logo no primeiro filho!
	Chega!  ordenou Richard, o rosto tornando-se duro.
	Cinco filhas...  continuou Clare.  No, claro. Apenas quatro. Richard no teria se casado com voc se fosse filha de Lawrence. Casar-se com a meio-irm seria incestuoso.
Lynn gelou. Richard no teria se casado com ela se fosse sua meio-irm? Ento, Richard era... filho de Lawrence! Lawrence Durant havia sido o amante de Clare e fora o pai de Richard!
	Pelo amor de Deus, guarde seu veneno para si mesma!
Mais do que falar, Richard sibilou aquelas palavras. Imperturbvel, a me bateu-lhe no ombro.
	Meus parabns, querido! Que eficincia em realizar seu plano. Espero que Lawrence esteja se revirando no tmulo.
Richard segurou com fora o brao da me.
	Durante toda minha infncia, me, paguei por seu silncio. Prometo que voc pagar se romp-lo de novo!
A ameaa era to palpvel que Clare Seymour se conteve. Richard soltou-a e ela dirigiu-se para a mesa das amigas, com as costas muito retas.
A expresso tornar-se de pedra mal definia como Lynn se sentia. Seus olhos ainda viam, mas o resto do seu ser parecia sem vida.
	Lynn...
Ela no queria olhar para ele. Quando olhasse comearia a procurar semelhanas com o verdadeiro pai. Como os olhos. Eram do mesmo azul que os olhos de Durant? E o contorno do queixo? Agora que sabia...
	Lynn...
Ele inclinou-se e estendeu as mos sobre a mesa, porm ela colocou as suas no colo. Ficou imvel, os olhos baixos fixos nas mos, sentindo algo muito ruim dentro de si. Estava como que envolta em algodo e a voz de Richard parecia vir de muito longe.
Lembrou-se de que fazia assim  mesa da casa de seu pai quando era pequena. Mas ele no era seu pai e sim pai de Richard. Engraado ela ter nascido para ser o filho e no era preciso. O filho j nascera. Ele havia sido feito na mulher errada, s isso. Mais engraado ainda Lawrence no ter sido informado. Se houvesse sido, ela no teria nascido...
Com certeza sua me no iria gostar daquilo e talvez continuasse tentando ter um filho, mesmo com o jardineiro italiano. E Richard no precisaria ter se casado com ela se dissesse a verdade a Lawrence. O controle de tudo iria diretamente de pai para filho e ela ficaria fora.
O diamante solitrio no terceiro dedo de sua mo esquerda pareceu piscar para ela. Seu anel de noivado. A aliana de casamento junto dele. A nica filha de Durant com quem ele podia se casar, porque no era verdadeira. No era a noiva de sua escolha. Que grande mentira!
Era como sua me dissera naquela tarde, no realmente uma escolha, mais uma deciso dirigida por um conjunto de foras.
Nada a ver com amor.
A finalidade... isto era o importante para Richard. Um caador se importa com o que pode lev-lo ao que ele quer.
Seu brao foi seguro por uma mo que a fez levantar-se.
	Vamos para casa  disse a voz grave.
Casa... Onde era "casa"? Onde o corao est, respondeu-lhe a mente, mas o corao dela estava feito em pedaos. No entanto, saiu do restaurante, o brao passado em sua cintura garantindo que ela caminhasse junto dele. A coisa seguinte que viu foi a porta do carro se abrindo. Acomodou-se no assento do passageiro e passou o cinto de segurana.
De novo no pertencia a ningum e a nenhum lugar. Estava s.
No. No era verdade. Havia o beb. O neto de Lawrence. Gemeu de angstia ao pensamento que seu filho tinha parte dos genes de Durant.
	Voc est bem?
A pergunta do homem que lhe havia feito aquilo, sem conscincia e sem se importar, arrancou-a do casulo defensivo do choque e a fria energizou seu corpo. Ela ergueu a cabea.
	No, no estou bem! Estou mal, Richard. E duvido que venha a estar bem de novo, graas a voc e ao modo como me usou.
	O que a minha me disse  irrelevante para ns, Lynn.
	Irrelevante!  A voz dela soava estridente.  O diabo  que  irrelevante! No me tome por uma completa idiota, seu bastardo!
Ele deu uma risada amarga.
	Sim, sou um bastardo. E se pensa que se eu tivesse dito a Lawrence que era seu filho bastardo ele iria me aceitar, esquea, Lynn. Lembre-se como Lawrence era e como tratou voc, a filha bastarda.
	Eu no era sangue e carne dele. Voc, sim!
	Acha que Lawrence queria um filho para competir com ele, para ultrapass-lo?  indagou Richard, triste.  Meu pai teria prazer em me manter sob seu taco de ferro, como fez com voc, Lynn. Era esta a natureza dele. S ficando do lado de fora eu conseguiria que ele me respeitasse.
Lynn no havia pensado nisso. Partira da convico que se Richard se houvesse revelado seria aceito. Tratou de ver a situao desse ponto de vista. Ser que Durant iria querer um filho capaz de competir com ele ou seu egocentrismo exigiria que o filho fosse inferior? Adicionando-se a ilegitimidade do filho, Lawrence com certeza o renegaria e o privaria de todos os direitos legais.
Se eu dissesse que era filho dele  afirmou Richard , Lawrence presumiria que eu estava querendo concesses, um caminho fcil para o topo. No aceitaria minha capacidade com justia e eu seria um constante desafio para ele. 
Sim, ela podia entender isso. Mas...
No precisava ter vindo trabalhar para Lawrence, Richard  observou, amargamente.  Com sua capacidade poderia arranjar-se bem em qualquer outra empresa.
Lynn notou que ele apertava o volante at o n dos dedos ficarem brancos.
Ele era o meu pai  foi a sombria resposta.  Eu soube desse fato com sete anos, Lynn. Lawrence Durant, um dos homens mais ricos e poderosos da Austrlia, meu pai. Acha que eu poderia esquecer isso?
Ele apertou os lbios antes de continuar.
Aqueles dias em que os pais iam ver os filhos representar ou receber prmios na escola eu pensava nele. Pensava em que suas outras filhas tinham privilgios e atenes porque eram legtimas.
As meio-irms dele... Felicity, Vanessa, Caroline, Nadine... tinham tudo enquanto ele no tinha nada.
De sbito Lynn viu com clareza. Richard queria ficar com tudo, de um modo ou de outro. Entendia, at, mas isso no melhorava as coisas para ela, que era para Richard apenas mais uma ferramenta para atingir o ponto que queria. Uma contingncia em seu plano.
	O rumo foi determinado h muito tempo...
Enquanto murmurava essas palavras ele se tornou o homem sombrio e perigoso que ela entrevira algumas vezes.
	E eu sou uma vtima dessa determinao  acrescentou ela.
	Uma vtima, no  retorquiu Richard.  Uma parceira.
A expresso dela endureceu.
	Uma parceira sabe dos planos.
	E voc sabia  garantiu ele.  Eu lhe contei no dia do funeral de Lawrence.
	Ah! Mas no me contou a parte principal, no ? Que eu era a nica das irms com quem voc podia se casar. No a sua escolha, mas a nica que podia participar do truque para o testamento de Lawrence passar para voc!
Ele bateu com as mos no volante, frustrado.
	No me diga que eu no fui atrado por voc, Lynn, porque eu fui!
A raiva dela cresceu.
	Voc no deu a mnima importncia para o que o atraiu em mim, Richard Seymour. Nunca se preocupou em descobrir.
Tudo que importava  que eu servia para seu propsito.
	Isso no  verdade!  negou ele, veemente.
	Mentiroso!  Lynn no foi menos veemente.
	Nunca menti para voc. Nunca!
	Eu gostaria de saber no que voc se baseia para afirmar isso!  escarneceu ela.  Colocar um gro de verdade numa mentira a torna menos mentira?
	Eu no menti para voc  ele falava por entre os dentes cerrados.
Lynn resolveu no insistir. Ficou em silncio enquanto percorriam o resto do trajeto. No momento em que o carro parou perto da casa ela saiu e distanciou-se sem correr. O orgulho a impedia de faz-lo. Claro que Richard a seguiu. O caador no desiste da presa a no ser quando se convence de que no tem mais qualquer chance de apanh-la.
A noiva da sua escolha!
Essa havia sido a pior mentira, a mentira que a fizera sentir-se especial, mais atraente para ele do que suas irms... As irms com as quais ele no podia se casar.
Lynn subiu a escada numa fria de rejeio a todas as coisas lindas que Richard lhe dissera para mant-la cega.
Ao chegar no topo da escada, voltou-se para o marido.
	No vou dormir com voc esta noite e nem em nenhuma outra. Arranje um lugar para dormir porque eu no vou ser sua... sua esposa idiota nunca mais!
Ele fitou-a com rosto feroz e continuou se aproximando. Lynn apressou-se pelo corredor, entrou no quarto e bateu a porta, pontuando sua deciso. Tirou as sandlias jogando-as longe e foi para a penteadeira para tirar a corrente que tinha no pescoo. Precisou do espelho para lidar com o fecho, mas tremia tanto de raiva que no conseguia nada.
Ento, a porta abriu-se e Richard entrou.
	Saia daqui!  gritou Lynn.
Ele ignorou a ordem. Com calma arrogncia que a irritou ainda mais, fechou a porta e ficou diante dela com ar de ir-removvel fora.
	Eu disse para sair!  Gom violenta paixo, Lynn pegou o arranjo de rosas e atirou-o nele.  E leve isto com voc. Estas rosas tambm so uma mentira!
Mas ele no saiu. No se moveu. Ficou ali, a determinao expressa no rosto, com uma fora intensa emanando dele e envolvendo-a aos poucos.
	Eu a deixei ir embora duas vezes  disse, calmo  e no vou deixar mais. Alm do que h entre ns, voc tem meu filho em seu ventre e no vou ficar sem ele. Nem vou deixar que ele fique sem o pai.

CAPITULO XIV

Pai do seu filho...
De algum modo lembrar-se disso esfriou um pouco a raiva de Lynn. Permaneceu parada, olhando para ele, com a semelhana de suas infncias se impondo, ambas sem o amor de uma me e de um pai.
Sentia-se dividida. Poderia justificar-se, ao expulsar Richard de sua vida, dizendo que seu amor seria o bastante para o filho deles? Um filho precisava do pai e no apenas do seu nome. Um nome no era o bastante. Deus sabia o quanto ela e Richard eram conscientes disso... da falta de um apoio amoroso, da privao emocional.
Richard afirmara uma vez que o filho que viesse seria bem-vindo e no se podia dizer que era mentira. Tudo evidenciava que era verdade: o cuidado dele com sua gravidez, o desapontamento de no estar presente no momento da ultra-sonografia, a emoo ao ver o filho pela primeira vez nessa noite. Tinha absoluta certeza que os anos de vida solitria haviam construdo em Richard a profunda resoluo de fazer tudo por seus filhos.
	Sinto voc ter ficado to chocada com a revelao da minha me  disse ele, gentil.
Acima de tudo, para Lynn, impunha-se uma pergunta.
	Por que ela no contou a Lawrence? Voc teria tido um pai que o cuidaria.
Ele fez um gesto de descaso.
	Orgulho. Minha me partiu do princpio que j que ele no  queria, no me teria. Era uma vingana silenciosa, mas creio que lhe deu satisfao.
	Por que veio me contar?
	Porque agora que ele est morto no se arrisca a nenhuma desagradvel exigncia.  O rosto dele escureceu e a raiva brilhou em seus olhos.  Ela no tinha o direito!
	No. Sua me no tinha o direito, mas voc deveria ter me contado, Richard. Devia ter sido franco comigo...
Ele sacudiu a cabea.
	Eu no queria que voc soubesse. Nunca. Poderia afetar o modo como voc me via, o que sentia por mim. Apesar de tudo, Lynn, sou o mesmo homem que voc abraou e beijou quando cheguei em casa esta noite.
	No. Aquele homem era o que voc mostrava para mim  negou ela.  O verdadeiro estou conhecendo agora.
	O que h de diferente? Um nome que nunca irei usar? Um nome que atormentou minha infncia e a sua? Um nome que odeio ainda mais do que voc?  Ele comeou a aproximar-se.  No deixe que Lawrence nos separe. H um lao entre ns. H...
	Pare!  Lynn estendeu os braos como para det-lo.  No chegue perto de mim.  A voz dela tremia com a violncia da averso.  Se tentar me tocar lutarei com unhas e dentes.
Ele parou do outro lado da cama. Lynn estava em pnico, apoiou-se na cabeceira por sentir as pernas fracas, os joelhos trmulos. Richard franziu a testa.
	Voc sabe que eu no a magoaria...
	Mas me magoou!  gritou ela.  Mentiu e acreditei em voc. Disse-me o que eu precisava ouvir...  Lgrimas subiram-lhe aos olhos.  O que eu queria ouvir...
A dor era profunda. Impossvel exprimir o que ele lhe fizera com suas mentiras.
	Eu no lhe contei tudo a meu respeito, Lynn, porm jamais menti para voc  insistiu Richard, num tom calmo que a agitava mais ainda.
	Voc me decepcionou fazendo-me acreditar que me preferia.
Essa era a pior coisa que ele fizera, a que doa mais.
	Eu preferi  afirmou ele.  No h mentira nenhuma em dizer que voc foi a noiva da minha escolha.
	Voc no poderia escolher entre eu e minhas irms porque no havia escolha!
Ela o detestava por desmentir algo to evidente.
	Eu no iria quer-las mesmo que pudesse  persistiu Richard.  Eu queria voc. Quero voc e sempre quis voc.
	No... no... no! Voc no me escolheu por mira. O que sou como pessoa no importou!
	Importou, sim  ele falava com fervor.
	No minta! Eu era a nica que poderia lev-lo at onde quer estar.
	Sim. A nica  concordou ele, afinal, com paixo.  Porque onde quero estar  com voc!
	Isso no  verdade!
Ela no podia acreditar porque aquilo significava muito e no suportaria se fosse mentira.
	Com voc, Lynn  repetiu ele, os olhos brilhando intensamente.  Com voc e depositando aos seus ps tudo que Lawrence Durant construiu. Com voc, no papel de heri que sempre quis que eu representasse. Com voc pelo resto das nossas vidas.  aqui que eu quero estar!
Ela ficou paralisada, o corao batendo desesperadamente, enquanto Richard continuava a falar.
	Voc  a nica para mim. A nica em todos os sentidos. Era por sua causa que eu ia almoar na manso Durant, aos domingos, e no por Lawrence. Senti-me ligado a voc, Lynn, desde que era uma adolescente. Eu queria proteg-la, queria faz-lo parar. Mas tinha que ficar vendo tudo sem poder fazer nada... E quando voc foi embora de casa, senti orgulho por saber que se libertara, que ia, por fim, ser voc mesma.
Ele calou-se com um estranho olhar, como se houvesse um conflito ntimo.
	Tive que fazer um imenso esforo para no ir atrs de voc, ento. Eu sabia que voc precisava estar longe de tudo e de todos. E precisava de tempo... tempo para crescer e se transformar na pessoa que era capaz de ser.
Olhando para trs, Lynn compreendia que era verdade o que ele dizia, no entanto ser que realmente ficara aflito quando ela fora embora?
	Contratei um investigador particular porque no queria perd-la  prosseguiu Richard.  Era o melhor meio de ficar sabendo se tudo estava bem. A, tratei de procurar seu verdadeiro pai. Talvez ele fosse algum para o lado de quem voc poderia ir, algum que a reconhecesse como filha... mas no era o caso.
Fez uma pausa, implorando compreenso com o olhar.
	Eu a teria posto em contato com seu pai, Lynn  prosseguiu , se achasse que isso a ajudaria. Mas ele estava na Itlia e eu no via nada de bom para nenhum dos lados. Parecia melhor esquecer isso do que acrescentar mais sofrimento ao que voc j suportava.
A garganta dela estava apertada demais para que pudesse responder. Desconfiara dos motivos de Richard e ali estavam eles, claros. Como duvidar de sua boa vontade em ajud-la?
	Eu no esperava que Lawrence morresse  voltou Richard.  Mais um ano... dois no mximo... e eu poria em ao planos para tirar o controle da empresa das mos dele.  Seu olhar chegou ao corao de Lynn.  Ento, eu iria busc-la e a teria cortejado com tudo que pudesse oferecer.
Lynn lembrou-se das palavras dele no dia do casamento: Lynn sempre foi a mulher com quem eu queria me casar. No fora mentira. No fora uma declarao apenas para os reprteres. Era a verdade.
	A morte de Lawrence frustrou o plano.  De novo os olhos dele, no os do caador mas os do homem apaixonado, imploraram aos dela.  E voc veio para o funeral. No mais uma adolescente. Uma mulher. Uma mulher to linda que eu quis t-la.
Ela sacudiu a cabea compreendendo como interpretara mal quase tudo que ele fizera e dissera.
	 verdade, Lynn, eu juro- declarou Richard, entendendo mal a reao dela.  Sim, o testamento de Lawrence alterou a situao. Eu queria dar tudo a voc, mas acima de tudo, eu queria voc... e usei de todos os recursos ao meu alcance para consegui-la naquele dia.
No jardim, Richard dizendo que queria casar-se com ela, dizendo: Creio que no acreditaria em mim se lhe dissesse que a amo. Ela no acreditara, de fato, nem por um momento. E naqueles ltimos quatro meses que estavam juntos no se deixara acreditar porque duvidaria mesmo que ele o dissesse e Richard no havia dito.
	Naquele dia no me importei com o que a fazia concordar em casar-se comigo. Bastava ter concordado. Pensei que poderia atra-la para mim...
	Com sexo?
Lynn agora via como parecera para ele a sua resposta na casa de vero e o pensamento de Richard nesse aspecto ntimo do casamento. As noites sero minhas...
De sbito, surgiu uma profunda angstia nos olhos azuis.
	Voc correspondia... Todas as vezes. Pensei que esse fosse o meio certo de conseguir voc. Mas tambm procurei cortej-la, Lynn, com o casamento, a lua-de-mel.
Sua rainha...
Rosas, cor de creme no buque de noiva e hoje... Ela olhou para as rosas vermelhas espalhadas no cho.
	Pensei que tendo um filho... o nosso filho...  A voz dele quebrou-se.  Por favor, Lynn! Por ele, no por mim, no me deixe!
Lgrimas desceram pelo rosto dela, lgrimas que no a deixavam ver Richard direito. Mas no tinha importncia. Ele estava ali por ela, sempre estaria.
	Eu o amo, Richard! Pensei que voc no me amasse, que eu era... eu era "nada" de novo. Desculpe, eu...
Ele a abraou to depressa que Lynn esqueceu o que ia dizer. Simplesmente aninhou-se em seu peito, feliz, sentindo-se protegida.
Ele a abraava forte, como ela precisava ser abraada, para no deix-la ir, e havia tanto conforto- nisso... A sensao de afinal ter chegado em casa, ao lugar a que pertencia... com ele... E todos os anos de solido se desfizeram. A dor e o que fora forjado por aquela dor desapareceram. A unio deles era insupervel porque significava muito... muito... para os dois.
As lgrimas continuavam descendo, como um resultado de todas as emoes e sentimentos que ela havia sufocado, os medos, as incertezas, as esperanas e as dvidas, a necessidade de ser forte e independente, de se proteger. Seria libertada de tudo isso nos braos de Richard, com ele assim, alisando-lhe os cabelos, murmurando ternamente que ela estava em seu corao.
	Minha vida no existe sem voc, Lynn. Desde o dia em que a conheci tive um motivo para viver. Um bom motivo. Muitas vezes, durante anos, quando eu fazia alguma coisa dizia "isto  para Lynn".
O peito dele subiu e desceu num profundo suspiro.
	Jamais pense que voc  nada, Lynn. Voc  tudo. A luz da minha vida. A alegria. A mulher que eu amo. Com voc eu me sinto... certo. Como se as peas faltantes de um quebra-cabea entrassem nos lugares. Os espaos vazios so ocupados por voc. No sei se entende o que quero dizer...
	Sim, oh, sim!  respondeu ela, as palavras saindo da alma.
E as lgrimas se foram, deixando lugar para um profundo bem-estar. Lynn ergueu a cabea para fitar os olhos do homem que amava e queria de tantas maneiras. Agora eram como duas janelas abertas para ela, duas janelas azuis que revelavam tudo que queria conhecer sem engano, sem manipulao. E revelavam tambm o desejo por ela, to impulsivo quanto o dela por ele.
Suas bocas se encontraram nos sentimentos libertos, pois nenhuma das vezes que tinham feito amor se comparava a esta, que era um encontro total, que era dar-se um ao outro inteiramente, num entendimento perfeito.
Ao longo da noite tocaram-se, beijaram-se e se amaram de todas as maneiras que expressavam seus sentimentos, revelando-os, completando o entendimento que permaneceria pelo resto de suas vidas. Uma slida base na qual construiriam o futuro juntos. Tudo que realmente contava  que iam partilhar esse futuro.
Mais tarde, quando estavam deitados um ao lado do outro, com todas as barreiras diludas, Richard tocou carinhosamente o ventre de Lynn e foi ento que ela lembrou-se de uma clusula do testamento que a fez rebelar-se.
	Richard...
	Hum?
	Temos que pr o nome de Lawrence no nosso filho?
	No. Este filho  nosso e vai ser ele mesmo.
Ele curvou-se e encostou o rosto no ventre de Lynn. De sbito sentiu um movimento.
	Viu? Ele est fazendo sentir sua presena. J  um indivduo determinado!
Ela riu do ar orgulhoso do marido.
	Pensei que estivesse estabelecido no testamento...
	Posso dar um jeito nisso.
A confiana de Richard era tanta que ela no insistiu.
	Que nome voc quer?  perguntou, feliz por poder fazer a escolha.
	O que voc quiser, Lynn.
	Gosto de uma poro de nomes  riu ela.
Ele deu-lhe um olhar esperanoso.
	Ento, acho que vamos precisar ter uma poro de filhos para us-los todos.
	Hummm... Que tamanho de famlia voc tem em mente? Pensa fundar uma dinastia, Richard?
Ela brincava, mas ele respondeu srio.
	No. Isso no. Nunca  disse enfaticamente, fitando-a.
	No me misture com Lawrence, Lynn. Quando eu tiver o controle da empresa poderemos vend-la, se quiser que nos livremos dela. No quero que nenhum filho meu seja obrigado a seguir meus passos.
	Eu no o estava comparando com Lawrence, Richard.  Ela sorriu, pois no havia comparao possvel.  Se sou a sua rainha, voc  meu rei e uma famlia real recebe o nome de dinastia, no? Com a diferena que todos os nossos filhos podero abdicar e levar suas prprias vidas. Certo?
	Certo  afirmou ele, relaxando de novo. Ento reagiu:
	Todos os nossos filhos?
	Bem, eu no gostaria que nosso filho fosse filho nico. Seria muito solitrio para ele.
	Tambm penso assim.  A alegria cintilava nos olhos de Richard.  Uma famlia nossa, do princpio ao fim, querida!
	Sim  concordou ela, sabendo o que ele queria dizer.
Nenhum de seus filhos iria sentir-se no querido ou rejeitado, sem pertencer a ningum, sem ser valorizado pela pessoa que ele ou ela era. Do momento em que houvessem nascido seriam bem-vindos, amados por seus pais e esta segurana emocional perduraria por toda a vida deles.
	Depende de ns  murmurou Lynn.
	Conseguiremos!  garantiu Richard, confiante, abraando-a.  Faremos isso juntos, Lynn. Um seguro crculo de amor em que nossos filhos crescero.
 essa a finalidade que voc procura, Richard?
	Com voc, meu amor. Com voc.
Beijou-a e Lynn soube que era verdade.
Receber no era s o que o caador almejava. Ele queria dar, tambm.

CAPITULO XV

Era a maior recepo que j dera em sua casa e Lynn estava feliz por tudo correr bem. Os convidados, famlia e amigos, divertiam-se. Claro, a comemorao de um batismo era uma ocasio feliz e o filhinho deles, de quatro meses, era o astro da festa. O testamento de Lawrence fora por fim homologado e o futuro estava aberto para novos rumos.
Lynn desconfiava que esta ltima parte contribua para a boa disposio de suas irms, que tinham aceito o convite. Provavelmente jamais seria ntima delas, mas era bom ter desaparecido o antagonismo, fazendo-a sentir-se por fim aceita, mesmo que fosse s por ter tido um menino. Ou talvez porque sem a insidiosa influncia de Lawrence elas comeassem a v-la com seus prprios olhos. Tanto Felicity quanto Vanessa tinham parecido sinceras em seus comentrios.
	Adorvel a sua casa, Lynn  admirara-se Felicity.  Que interessante uso de cores, nada usual!
Felicity sempre fora partidria do estilo clssico e era bom ver que no criticava.
- E a vista  maravilhosa  acrescentara, encantada. Com Vanessa havia sido uma agradvel e pequena conversa.
Que beb mais lindo, Lynn! Ele conseguiu me animar!
Voltara-se, coquete, para o novo namorado.  Voc tem jeito para ser pai, Jordan?
	De quantos filhos voc quiser, se aceitar casar-se comigo respondeu ele, alerta.
	Oh! Creio que Jordan s pode me provar que ser um pai to dedicado quanto Richard quando nos casarmos...
Tendo tido um pai como Lawrence, Lynn compreendia o temor de Vanessa, mas vendo como os dois pareciam se dar bem desejou que tudo corresse do melhor modo para eles.
Richard era totalmente dedicado ao filho. Observando-o agora, enquanto carregava o beb entre os convidados, mostrando-o a todos, ningum diria que controlava um imprio financeiro. Era o exemplo do pai orgulhoso, adorando o filho e querendo que todos os demais o adorassem. E o consegue porque ele  adorvel, pensou Lynn, sorrindo de orgulho.
Ia aproximar-se do marido quando Caroline a interceptou.
	Tem um momento, Lynn?
Surpreendida, ela respondeu automaticamente:
	Sim, o que voc quer?
	Conversar.  Um irnico sorriso acompanhou as palavras seguintes.  Se  que pode roubar um pouco de tempo da sua famlia feliz.
Lynn sentiu que Caroline esperava uma reprimenda mas apenas sorriu, sem animosidade pela irm indelicada, consciente das frustraes que a amarguravam.
	Podemos, desde que seja ao ar livre  respondeu.  Vamos para a varanda.
Caroline relaxou visivelmente.
	Obrigada, um pouco de espao ser timo.
Caroline pegou bebidas da bandeja de um garom que passava e saram. Entregou o suco de laranja para Lynn e ficou com o copo de champanhe.
	Bebida saudvel para voc e animadora para mim.
Depois de tomar uns goles do champanhe e admirar a vista, Caroline comeou a falar sem olhar para a irm.
	Devo-lhe um pedido de desculpa. Fui horrvel com voc e sinto muito. Voc foi a nica certa de ns, Lynn, indo viver por conta prpria. Foi certa, tambm, casando-se com Richard. Tudo que posso dizer para diminuir minha culpa  que sempre a admirei.
Lynn respirou fundo. Estavam num terreno emocional, ento falou com cuidado:
	Espero que agora esteja melhor para voc, Caroline.
	Estaria melhor se me tivesse libertado  foi a resposta triste.  Eu devia ter parado de reagir  insistente rejeio de meu pai por minhas habilidades e ter feito carreira.
	Em qu?  interessou-se Lynn.
	Direito.  um desafio que me atrai e tambm leva aos corredores do poder. Gosto do poder. Eu teria me casado com Richard por isso, mas seria melhor se o alcanasse por mim. No quero depender de um homem.
Alicia tinha razo, pensou Lynn. Caroline era mais filha do pai do que as demais irms.
	Quer saber? Foi melhor Richard ter escolhido voc  afirmou Caroline.  Isso nos deixou livres, como voc disse no seu casamento, para fazer nossas escolhas, sem medo.  Por fim ela voltou a cabea e encarou a irm.  Mas, pelo que parece, ele jamais teria escolhido uma de ns  comentou, triste , porque sempre quis voc, no ?
	Sim  confirmou Lynn.
	E  amor. Posso ver isso agora. No s em voc. Nele tambm. Vocs alcanaram a felicidade, no?
	Pelo menos,  o que parece, Caroline.
Ela assentiu.
	Fico at arrepiada vendo vocs dois.  diferente... to diferente! No h tenso, tudo est bem.
	Fico contente por voc no se importar e...
	Importar! Eu  que pergunto se voc se importaria se eu voltasse outras vezes aqui. Apenas para me lembrar de como pode ser... Posso vir de vez em quando visitar o beb?
 perguntou esperanosa.  Quero dizer...  o sorriso sem jeito parecia um apelo  posso desenvolver meu lado bom se tiver chance.
	Venha quando quiser, Caroline  disse Lynn com calor, compreendendo que a irm precisava de amizade.
O alvio dela foi quase palpvel.
	Obrigada, Lynn. O beb  mesmo um encanto. Adoro quando ele sorri, faz meu corao se derreter. Richard  que escolheu o nome?
	No, fui eu.
	Acertou na escolha,  perfeito. Alexandre... Alexandre, o Grande!
Lynn riu.
	Ele no precisar ser "grande", Caroline, desde que seja feliz com o que for.  isso que Richard e eu queremos para ele.
Caroline riu tambm.
	Bem, pode contar com esta tia para mim-lo.
	Mimar...  disse Lynn pensativa.
Depois as duas riram do entendimento a que tinham chegado Era um riso que curava, pensou Lynn e esperou que fosse um passo a mais para aproxim-las.
	O que vocs duas esto fofocando a?
Elas voltaram-se e viram Nadine vindo por uma das alamedas do jardim.
	Sobre a falta de mimo que houve em nossas vidas  explicou Caroline.
Nadine fez uma careta e parou perto delas.
	Por que estragar um dia to lindo com ms lembranas?
 Apontou para o jardim.  Voc  que colocou esses vasos  entrada das alamedas, Lynn?
	Sim. Eles so parte de uma srie que fiz para decorao exterior.
	Mame disse que voc trabalha com cermica. Devo dizer que tem talento e bom gosto.
	Obrigada.
	Sabe, nunca pensei que voc servisse para alguma coisa, Lynn. Mas serve.
A declarao bruta era bem de Nadine e Lynn no se ofendeu.
	Fico contente em ouvir isso.
	Se precisa de aprovao, aprovo com louvor os vasos e urnas que fez e o modo como os usa.
	Muita bondade sua, Nadine.
Caroine riu e Nadine voltou-se zangada para ela.
	No estou brincando! Lynn  mesmo boa nisso. Na verdade, estou planejando montar uma loja de presentes quando receber minha parte da herana e quero vender as suas peas. Ser que podemos fazer um acordo?
	Com certeza  assentiu Lynn.  E sinto ter atrapalhado vocs quando era criana...
	Bom, voc era uma menina terrvel, sempre se metendo em encrencas! E agora, me roubou Richard. Foi o mximo. Eu me interessava por ele e no entendo por que a escolheu.
	Chame isso de qumicas combinando  interferiu Caroline.
	Deve ser  suspirou Nadine.  isso sempre funciona. Quem diria que amos ver Richard Seymour como virtual escravo de uma mulher e um beb! Por falar neles... 
Voltaram-se ao ouvir o choro de Alexandre. Richard aproximava-se murmurando palavras para o filho que no queria saber de nada e chorava em altos brados.
Lynn foi ao encontro deles.
	O que h?  indagou Caroline.
	Hora de mamar  riu Lynn.  Quando Alexandre decide que est com fome, exige atendimento imediato.
	Hora de mamar  repetiu Richard, passando o filho para Lynn.  Eis uma coisa que no posso fazer  ele riu para as cunhadas.
Imediatamente Alexandre parou de chorar e fungou procurando no peito da me.
	Viram? Ele sente o cheiro do leite  explicou Richard.
As duas irms comearam a rir e a brincar com ele sobre suas limitaes de pai. Richard respondia bem-humorado enquanto Lynn entrava para amamentar o filho.
Em vez de subir ao quarto do beb, ela foi para seu estdio onde colocara uma cadeira-de-balano e uma mesa para trocar o beb durante o dia. Como ficava nos fundos, era um lugar sossegado e ela surpreendeu-se ao encontrar a me ali.
	Refugiando-se da festa, me?
Alicia sorriu.
	No  bem isso, eu quis ver seus ltimos trabalhos. Hora de mamar?
	Sim, e urgente.
	Importa-se se eu ficar?
	De modo nenhum.
Lynn acomodou-se na cadeira-de-balano e deu um seio a Alexandre. Enquanto ele se ocupava mamando ela olhou a me que estava perto do pedestal com o vaso azul.
	Voc no o vendeu  comentou Alicia, tocando-o.
	Gostaria de ficar com ele, me?
	Oh! Tenho certeza que no o vendeu porque ele  especial para voc, Lynn. Eu no queria...
	Aceite-o como agradecimento por ter organizado esta festa por mim.
	Verdade?  Os olhos de Alicia brilharam de satisfao.
 No vai ficar triste?
	No. S o conservei porque foi o primeiro em que essa nova tcnica deu resultado. Se gosta dele...
	 lindo! Adorei na primeira vez que o vi.
	Ento,  seu.
	Oh, muito obrigada, Lynn!
Alicia conversou sobre outras peas que estavam nas prateleiras e em outros pedestais, enquanto Lynn amamentava Alexandre. Desde o ano anterior tinham um bom relacionamento. Alicia a aconselhava sobre compras e sobre recepes. Raramente falava da prpria vida, mas mostrava interesse pela da filha. s vezes Lynn tinha impresso que ela era fascinada pela vida qu no levara.
Enquanto Lynn trocava a fralda do filho, Alicia ficou olhando, encantada. O beb era todo sorrisos, sacudia pernas e braos emitindo sons de felicidade.
	Impressionante quanto cabelo ele tem... e to negro!
	Bem, Richard e eu temos cabelos pretos  lembrou-a Lynn.
	Sim, porm ele se parece mais com voc, Lynn. Os olhos dele so escuros demais para se tornarem azuis. As pessoas falam nele como neto de Lawrence, mas na verdade  meu neto, no?
Nesse momento uma srie de bolhinhas se formaram nos lbios rosados do beb. Alicia riu, deliciada.
	Vai ser divertido ter na famlia um menino... que nada tem a ver com Lawrence.  Suspirou e sorriu tristemente para Lynn.
 Sabe, eu gostaria de ter tido um menino, mesmo. No fui grande coisa como me, Lynn, mas se ne deixar ser av...
	Voc  av dele  assegurou Lynn, entregando o beb  sua me.  Pegue-o e o leve para Richard.
	Onde est o menino lindo, hein?  dizia Alicia ao neto enquanto atravessava o estdio.
O tempo operara mudanas em todos eles, pensou Lynn. Mas, olhando para trs, compreendia que havia sido irreal esperar que a influncia de Lawrence sobre a famlia se desfizesse. Porm j no se tratava de uma influncia sombria. Havia aceitao, agora, e a esperana de um tempo melhor.
Depois de arrumar a mesa de trocar, Lynn voltou para o salo de bom humor at que viu Alicia, ainda com Alexandre no colo, falando com Clare Seymour. Ficou tensa imediatamente. Ser que tudo estava bem? Onde se encontrava Richard? Percorreu os convidados com os olhos procurando pelo marido enquanto mil suposies passavam-lhe pela cabea.
No conhecia a me dele, se bem que a situao entre Ri-chard e Clare se houvesse atenuado. Ele fora falar com ela no dia seguinte ao da chocante revelao e Lynn lhe pedira que no a ameaasse para obrig-la a manter silncio.
	Seja franco com sua me, Richard  pedira a ele.  Diga-lhe o que seu silncio significa para voc e para mim. Faa-a ver que Lawrence no est mais aqui e que no h motivo para nos ferir. No fizemos nada a ela.
Mas Clare estava conversando com Alicia, a esposa que ela quisera que Lawrence abandonasse...
O corao de Lynn confrangia-se com a incerteza quando divisou Richard. Um garom, com uma bandeja de copos, interferiu em sua viso momentaneamente, depois l estava ele de novo falando com dois senhores, mas olhando para a me e Alicia. Lynn acalmou-se quando viu que sua expresso era tranquila, havia at mesmo um leve sorriso em seus lbios.
Tudo estava certo, pensou. Confiante, atravessou o salo na direo dele que devia ter sentido sua aproximao de algum modo. Seus olhos se encontraram e ele lhe sorriu com amor, fazendo-a vibrar de felicidade. Estendeu o brao para ela, que se aninhou a seu lado, com um suspiro de contentamento. Era o seu marido, o companheiro do seu corao, da sua alma.
Richard beijou-a na testa e esfregou a face em seus cabelos.
	Nossas mes parecem ter encontrado um interesse comum  murmurou.
	Nosso filho  que sai vencedor com isso?
	Nosso filho sempre ser um vencedor  declarou ele, caloroso.
Lynn descansou a cabea no ombro do marido e os dois ficaram olhando Alicia e Clare, que fitavam o netinho com orgulhosos sorrisos.
O que as teria feito erguer os olhos ao mesmo tempo para Richard e Lynn? Algum sexto sentido? Uma corrente de energia entre eles? A fora da natureza renascendo? Um senso de maternidade recm-desperto?
De sbito, ali estavam duas mes observando seu filho e filha, gostando do que viam, gostando do que eles representavam, gostando de quem eles eram.
Lgrimas subiram aos olhos de Lynn, mas ela no chorou.
Fitou Richard e viu nos olhos dele que tinha a mesma sensao de algo como um milagre... A rejeio que os fizera sofrer a vida inteira havia desaparecido.
	Tudo comea com ns dois  murmurou ele.
	Com amor  respondeu ela.
	Sim, sempre dando amor.
A verdade profunda do amor: dar. Eles sabiam disso e Lynn esperava que toda sua famlia agora soubesse.
Amar  um dom e esse dom jamais dever se perder, porque  a coisa mais preciosa da vida.

FIM
